sábado, 10 de dezembro de 2011

[pre]dileção - de minhas estrelas-sóis


"Aquilo que capto em mim tem, quando está sendo transposto em escrita, o desespero das palavras ocuparem mais instantes que um relance de olhar."

C. Lispector





não há [mais dolorido] parto:

trazer à luz o âmago

– amor intrínseco...

[como me fosse possível.]




“O som que eu ouço

São as gírias do seu vocabulário...”


C. Eller [Nando Reis]

terça-feira, 29 de novembro de 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Política da solidão

[eu amo muito!]


[Se há algo que, imprescindivelmente, me faz deixar de ser só.. é isto: compartilhar leituras maravilhosas!]


Clinicalização do estar só escamoteia o verdadeiro mal da sociedade atual

Marcia Tiburi

"Algo vai muito mal com a autocompreensão do ser humano sob a crença de que existe um padrão normal dos afetos que calibraria o todo da experiência emocional humana. A crença na normalidade confirma apenas que vivemos mergulhados na incomunicabilidade. Os sentimentos humanos são nebulosos e confusos, mas não são expressos senão por meio de atos desesperados que falam por si mesmos.

Se a norma fosse estabelecida pelo que há de mais comum, teríamos de voltar ao paradoxo de Bacamarte: o anormal é normal, o normal é anormal.

O fenômeno contemporâneo da psiquiatrização da vida nasceu como tentativa de eliminar a estranheza humana. Hoje ele sustenta a indústria cultural da saúde, que se serve do sofrimento humano como a hiena se serve da carniça.

Para os fins do logro capitalista já não basta aproveitar a desgraça do outro, também se pode ajudar a incrementar a produção do infortúnio usando a arma do discurso. A moral une-se à ciência nessas horas e quem paga o preço é o indivíduo humano, do qual se extirpa a capacidade de pensar sobre sua própria vida.

Se a indústria farmacêutica depende da evolução das drogas e dos remédios, depende também da existência de doenças. Criar um remédio pode implicar a criação da doença.

Assim é que uma das mais fundamentais experiências humanas na mira dos sacerdotes da moral que propagam a psiquiatrização da vida é, hoje, a solidão. A banalidade da proposta não é pouco violenta.

Em pesquisa recentemente divulgada, um médico norte-americano definiu a solidão não apenas como doença, mas como epidemia. Tratou-a como uma tendência contrária à evolução. Definida como um erro da “natureza humana”, a solidão passa a ser vista fora de sua dimensão social e histórica. Como doença, ela seria a causa do sofrimento e não o efeito da perda de sentido da convivência entre as pessoas. Em última instância, daquilo que seria o significado mais próprio da política como universo da integração entre indivíduos e comunidades.

Em um mundo em que a política foi destruída pelo poder transformado em violência, a solidão é o sintoma do medo do outro que ameaça o indivíduo.

Diz-se indivíduo daquele que não pode ser dividido, que é inteiro. Podemos dizer que a solidão é constitutiva de si no mais simples sentido metafísico. Mas há a solidão como um fato que diz respeito à vida vivida fora das relações. É essa solidão que deve ser inscrita na filosofia política como afeto político.

Mas não há nada de anormal em um indivíduo viver só. A solidão da qual muitos se queixam hoje como um desprazer pode ser para outros tantos um prazer. Viver em comunidade não faz sentido para todo mundo e isso não leva necessariamente à conclusão de antissociabilidade da qual o indivíduo seria a vítima ou o culpado.

A solidão nas cidades grandes é muito mais um sinal da precariedade do sentido da comunidade e da convivência, é mais um problema sociocultural do que de escolha individual.

Selva de pedra

Certamente ela reflete a impossibilidade de retornar às florestas, como um dia fez Henry Thoreau. As florestas estão em extinção, assim como, curiosamente, a ideia de humanidade. Resta fugir para a moderna caverna na selva de pedra – sem querer reeditar lugares-comuns – que é a casa de cada um.

A solidão é, assim, a categoria política que expressa a nostalgia de uma vivência de si mesmo. Ela é, por isso, a tentativa de preservar a subjetividade e a intimidade consigo mesmo que não tem lugar no contexto de relações sociais transformadas em mercadorias baratas.

A sociedade da antipolítica precisa tratar a solidão como uma pena e um mal-estar quando não consegue olhar para a miséria da vez: o fetiche da hiperconectividade, que ilude que não somos sozinhos."

. . .

intertexto dialógico:

eu: vc já viu o enigma de kaspar hauser? se sim, como nunca me indicou??

ela: sim, tem um daqueles dentro de pessoas como vc e como eu. por isso somos do mesmo planeta. bom, dá menos solidão nesta vida de merda... é de merda, mas não vamos contar pra ninguém.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011


A metafísica dos chocolates. Sim, há metafísica nos chocolates. E mesmo o mais doce dos chocolates, quando a alma pequena, amarga. Como chocolate, apequenada, sem pensar em nada – ou pensando em muito. Lavrando a existência. Desorganizada em corpo. Descompensada à própria veemência. Como que distribuída... [aos porcos?]. Frente a um abismo verde escuro, escuro. Sem matéria de salvação. À mercê de. Instabilidade. Ignorância. Desilusão. Desastre. Desassossego. E nem mesmo é Domingo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

vibração


quero ouvir o meu silêncio
em tudo aquilo que foi dito.
como eco solitário
repetindo, repetindo, repetindo...

quero a agudeza interrogativa
repousada em meu colo
[eu e ela, apenas!]
no sossego grave dos sentidos.

o mundo é a palavra
habilitada para o encontro
do inferno e o paraíso.
— acho que li num livro!

ah, a história deste instante
é tão rude e não se explica.
quero ouvir no meu silêncio
a mudez da minha vida.

domingo, 23 de outubro de 2011

SADE ADU: MINHA DIVA SOUL EVER!




Porque eu não consigo transcrever a emoção, alegria, admiração, êxtase... tudo!, de um espetáculo [e que espetáculo!] musical de 2h!

I CHERISH[ED] THE DAY! *-*
And yes, I'm a "Soldier of Love" too!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

FODA-SE!





é o poema da vez.
saltou em grave voz.
- nem a greve
ou a por-ra-da-mo-no-gra-fia
devem
me calar agora.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Amor

Ainda me lembro daquela madrugada. Tentávamos nos despedir, havia quase três horas, no portão de casa. As mãos não se soltavam, tampouco as bocas, ainda pouco íntimas; sedentas uma da outra. Sobre nós, o orvalho derramava seu álgido hálito, e nos aquecíamos no abraço. No intervalo em que os olhos se encontravam, só diziam uma coisa compreendida no silêncio...

Cheguei a empurrá-lo umas duas vezes, para que partisse, enfim. Mas me beijava, delicadamente, o pescoço; arrepiava-me o corpo, mantendo-me junto de si.

O quintal, pouco iluminado pela parca luz do poste da rua, propiciava o clima. Foi quando outra luz - do pensamento - fez-me, de repente, puxá-lo pelo braço e, portão adentro, arrastá-lo ao corredor externo, que conduz à área, aos fundos. Tropeçamos nos vasos de plantas da minha mãe, espalhados no caminho, mas chegamos ilesos. Havia pouco mais de duas semanas que nos conhecíamos e estávamos no corredor escuro da minha casa! - ambos plenos de intenções.

Com ruidosa abertura do tal feltro do seu bolso da bermuda, retirou uma pequena embalagem aluminizada. Mostrou-me. Sorri. Sorrimos. Encostado na parede, me puxou pela cintura e beijou-me com vigor. As línguas misturavam-se; umas mãos abriam zíperes com urgência; outras rasgavam a pequena embalagem... Virou-me; amparei-me na parede em frente e, com espantosa perfeição, moldamo-nos, ali, um ao outro. O orvalho, então, nos bafejava. Era uma noite estrelada...

Foi a primeira vez que nos dissemos amor sem nos olharmos nos olhos.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

talvez

talvez o que escrever
revele-se bonito e não
mais uma folha morta;

talvez queira dizer
que as árvores são muito mais
que plantas: são dádivas;

talvez já saibam disso
e eu tenha, assim, gastado
uma dadivosa vida;

talvez, no entanto,
eu nem quisesse escrever,
dizer ou [ter de] viver...

- talvez perder a vida
não seja assim tão triste
quanto pensá-la perdida.

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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

"Melancholia"


Duas irmãs. O casamento de uma delas, "bancado" pelo riquíssimo cunhado. Conflitos familiares ao longo da festa. Melancolia. Traição. Separação. Melancholia. A Gruta Mágica. O Fim do[s] mundo[s]. Assim se resume - sem menoscabar, mas por medo de tocar o brilhantismo intangível e para evitar desvelo - o último longa, obra-prima expressionista, do cineasta Lars von Trier.

O cenário é praticamente único: um castelo europeu - um "mundo" [de luxo] onde os dramas se arrolam sitiado por realidades praticamente ignoradas; a espera da espetacular passagem de um planeta azulado [Melancholia] pela Terra; o medo de Claire de morrer e o descaso de sua irmã recém-casada-separada, Justine, por viver.

A música que permeia todo o filme também é única: Tristão e Isolda, de Wagner - a mais perfeita expressão de angústia e sei-lá-mais-o-quê; capaz de dublar quaisquer diálogos e arrebatar os mais insensíveis ouvidos.

Na trama plena de simbolismos, o que une e sugere a ideia de mundos está na manifestação do interior das personagens refletida no espelho do mundo exterior. Ou seja, Melancholia, Terra e a Gruta Mágica [abstração do pequeno filho de Claire para salvarem-se do inevitável Fim] são, metaforicamente, eles mesmos.

O casamento - início de uma nova vida - é o primeiro dos Fins, pois que não dura mais que um dia. A constatação do possível choque do planeta azulado com o planeta azul, a Terra, é o maior deles. Eis [numa premissa um tanto pessimista] a inescapável Melanc[h]olia - mal-estar de uma civilização sem forças nem muitas razões para [sobre]viver - a engolir o planeta; dando-se, pois, o Fim do Mundo.


Assista ao trailler aqui.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

poesia líquida


nunca aprendi poesia.
nunca aprendi
lapidá-la:
poesia não é pedra;
poesia é água.
água
com que lavaria as mãos
e que deixaria, por si,
em uma superfície
secar-se...

mas ela não seca.
poesia é mar.
poesia é mágoa.
água minha:
poesia lágrima.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

a culpa é da Eva!















e da clareza, então, desfez-se a luz.
a mulher pura dessacralizou o Éden.
Noé salvou animais - não é?
o tal do Christo se rendera à cruz.

pobre Joana D'Arc: fogo em vida.
os índios foram, só, civilizados.
Bomba H: um grande cogumelo irado.
Ditadura: 20 'dias' de novas medidas.

o Trade Center era so much tall.
o Tsunami, um fenômeno mal!
o Haiti urgia mudanças - sim?

e o mundo inteiro era um gran jardim.
mas um pedaço, apenas, da maçã...
e a humanidade nunca mais foi sã.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sigmund



a fruta ,
em instantes, devorada
bateu no estômago do tempo
um mal-estar profundo...

entre as pernas
[que atravessam apressadas]
a fruta apodrecida
é o mundo...?


sábado, 16 de julho de 2011

amor-tece-dor



mil e uma peças tem o coração.
bate, bate, bate... maquinal
nesta vida de amor industrial
cuja autoridade máxima é a razão.

tão subordinado o pobre coração.
bate, bate, bate... maquinal
sem carteira ou renda mensal
a fabricar produtos de emoção.

pelo tempo das Revoluções Internas,
quebram-se legislações falidas;
nas indústrias das paixões eternas

sempre há casos de ilusões perdidas.
então, nova peça recompõe as pernas
das más emoções [(de) amor-]tecidas.



quarta-feira, 6 de julho de 2011

haikais




pseudo-companhia

o café, pela manhã,
tem, no meu quarto,
o calor do teu abraço.


visita

de mim saudosa,
me procuro pela casa
que nunca foi minha.


metapoeta

no espelho, eu
fiz um verso solitário
reflexo meu.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Para que serve a Arte [?]



A Arte é, muitas vezes, um espetáculo sobre o qual depositamos nosso olhar [já viciadamente “intelectualoide”], o qual pode vir torná-la mera mimese do real e da natureza, enquanto recriação destes.


Responder para que serve a Arte – como está proposto no texto de Alain de Bottom – é um exercício que se arrola há e em diversas épocas e que, até hoje, antepõe o ato de pensar ao de sentir.


Nietzsche, que buscou sensibilizar o conceito de Arte, mostra que, no entanto, uma experiência implica em outra. Isto é: pensar leva a sentir.


É através do questionamento sobre o sentido da Arte que a união de razão e emoção estende-se à sua compreensão.


Uma obra de arte suscita, portanto, o pensamento: sua retórica visual faz-se espelho, no qual nos podemos olhar e, de fato, ver – refletir.

*resposta de prova. nota máxima! =)

terça-feira, 21 de junho de 2011

a-risco


os poemas são silenciosos
riscos
– voos inscritos pelo céu escuro;
asas presas na armadilha d'uma aranha...

mãos que espantam pássaros
nunca hão de tecer teias:
o que escrevo são galopes!
os meus lábios, ferraduras
que penduro atrás da porta,
onde ninguém lê.

a lua
é uma sintaxe musical – serenata às janelas –
que tão poucos ouvem.

do seleiro da noite,
ouço os sons de cada letra minha
– um corcel de punhos!

rolam fenos assilábicos
nas bóreas do horizonte sombreado à neblina...
e a égua da manhã
relincha na esplanada,
arriscando as linhas
que eu cavalgo no dorso do dia.


"Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é.
Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem [...]
tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo:
come às vezes na minha mão."

C.L.

domingo, 12 de junho de 2011

[m]eu [z]elo


meu coração

quer se afastar de ti

só pra te trazer de volta

- numa mala de saudade;


te proíbe

que me olhes

só pra te guiar

até a mim;


ele quer, por vezes,

te odiar

porque é tão contrário

a si...

ele escreve estes versos

e depois rabisca

para não leres:

sua cardiografia pueril

troca por autorretratos

pintadinhos de vermelho

- significantes deste amor

que não cabe no peito.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

sobre-vir




a chuva que calha
no poema
não é água - precipitação
atmosférica
a desprender-se de nuvens:

todo dia cinza
tem suas gotas de tristeza...

poesia-chuva
é o que transborda pelas mãos
e escorre versos
a empoçar-se
em folhas secas.


quarta-feira, 25 de maio de 2011

canção silenciosa




horas rasas...
tão profundos
os segundos [que me vão];

leve insônia
- asa que desprende o tempo -
sonha sonhos
infinitos;

e o [in]consciente
- nascitura larva -
é liso; quase livre;
vagueando madrugadas
de ilusão tão plenas;

do casulo, quando
se rebenta,
é póstuma a memória
e distante o chão;

assim,
pensamento é dança
- expressão alada -
e liberto[-me] e isento[-me]
de qualquer razão,

onde o sonho
dura mais que um vento

e o vento, menos
que a canção...

segunda-feira, 9 de maio de 2011

varal



um dia meu corpo

não sabia do seu;

outro dia, só pensava nele

e parava o que estivesse fazendo

para trazê-lo uma vez mais

para perto de si.


hoje anda misturado

com isto que chamo de você.



e, se no seu peito, estou por dentro

[e não por fora] e sou seu cobertor

a lhe aquecer...

nesta canção, te amo

e, sim, me visto

de você, até quando me dispo de prazer.




*poema "a 4 mãos".


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Geometria de amor




Tenho um amor

que, de tão fresco, apanha

hieróglifos de vento

e sopra, em bocas

de suspiros simultâneos de segredos

partilhados, mil sorrisos;


tenho um amor

de vidro opaco, desfazendo-se

[partido] há tantos

anos panos planos

[corroídos];


tenho um amor ensanguentado:

drenado, drácula, dramático

- um fino fio desatado

em gotas álgidas de vida;


tenho um amor

de carne e osso, e ombros prestes,

que nem um delicado algodoal

ousara ser;

que a mim, de mim, não pede nada

apenas é;


tenho um amor

asas de beija-flor, entre a véspera e a saudade;



tenho um amor

célula-tronco - de umbigo

seco, brotando em uma gaveta;


tenho um amor

sessão da tarde; escapulido

num bocejo que um trem

das cinco; um barco para algures

deportou;


tenho um amor

casquinha seca de ferida

em meu joelho de menina;


tenho um amor

anúncio de jornal barato!

[PÁGINA INTEIRA];


tenho um amor

de porcelana, pólen à brisa,

recém-nascido,

pétala de apenas bem-me-quer;


tenho um amor

que não se explica

- tal [dis]léxico;


tenho um amor

assim, que nunca conheci,

entanto sempre houve em mim.


Amor dodecaedro

"pr'além de toda matéria esparsa em números".¹




¹verso de Drummond [adaptado] - poema 'Escada'.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O código da pálpebra



Assisti ao sensacional "Le Scaphandre et le Papillon", uma metanarrativa sobre um homem, Jean-Dominique Bauby, que escrevera um livro [homônimo do filme] durante os 15 meses que passara em um hospital: vítima de uma paralisia física total, conhecida como Síndrome Locked-In.

Mas como ele pôde escrever tal livro é a pergunta iminente. Jean-Do, com a ajuda de Claude Mendibil [sua 'intérprete'], transmitiu cada palavra - letra por letra - usando apenas o olho esquerdo [que era tudo o que ele podia mover]. Como? Um alfabeto de ordem decrescente de utilização na língua francesa fora o instrumento possibilitador de tal comunicação.
Assim, Claude soletrava-lhe e, com uma piscadela, o admirável paciente confirmava a letra desejada. Quando fechava o olho por alguns segundos, significava o fim de uma sentença ou parágrafo. Duas piscadelas também enunciavam quando necessário: era um 'não'.

É ou não para morrer de chorar?!

Apesar de uma condição, por muitos [e, por algum tempo, até por ele próprio], considerada vegetal, Jean torna-se o mais puro significado de viver. O escafandro [associado à prisão de sua doença] e a borboleta [ao seu pensamento - única liberdade] são, pois, o inexorável sentido da vida: a viagem interior, o mergulho em nós mesmos somado ao voo da imaginação, sob a redentora faculdade da razão.



*Jean-Do faleceu poucos dias após a conclusão de seu livro.


.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Re: a um email carinhoso

Nas águas de março, sob a folia molhada da Lapa, você me veio feito presente de aniversário.
Em poucos dias [noites, madrugadas], escrevemos já alguns capítulos [ine]narráveis de um diário que promete não se fechar tão rápido.
E se eu disser que me apaixonei será precipitado?, mas quem disse que isso deve demandar muito ou pouco tempo?!
Porque você me faz sorrir, me faz sentir, me apreende e me apraz e tanto, tanto mais...
E enquanto nossos lábios se encontrarem e deles desprenderem-se estrelas coloridas, ao vento que varre os tapetes de flores sob nossos pés flutuantes, minha vida será sempre um filme de Almodóvar ou Godard...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Fragmentos para se ler em qualquer ordem


Para ocupar o vazio insidioso, tentei, por vezes, fazer um poema concreto. Mas, há tempos [outrora doridos], não me escapa um verso, uma rimazinha só. – E naquele eu caí e ainda me encontro...

Aprendi, com essa ausência, a diferença básica entre pausa e interrupção: uma é para recomeço; outra, para subsistência. – A associação fica a gosto!

Amanhã, quiçá, descobrirei sua causa. – A casa sou eu.

Confesso, para justificar, que a minha inteligência [ou capacidade organizacional], há um tempo, fora se instalar n’algum cortiço meia-boca cuja origem desconheço. – Sua casa não sou mais eu.

Falo pouco, pois, não por fazer jus àquela ideia de que sábio é quem ouve, mas porque há uma [in]consciência de outra ordem, absolutamente inferior à que se emprega socialmente pelos outros seres, estes com os quais, em grande maioria, tenho abdicado contato. – Quando sim, no entanto, esforço-me para parecer compativelmente... agradável. Juro. [E quem jura não sabe SE mente.]

Não queria falar de sensibilidade, contudo... penso que ela seja uma forma de inteligência. – Ando tão in-sensível... [“O peso de sentir. O peso de ter que sentir!” ¹]

À probabilidade de ter realizado um aborto natural sou imensamente grata. – Porque pr’além de todo desejo há, felizmente, o Destino...

Não sei quantas vidas serão necessárias para entender esta! – O espiritismo não tem me explicado muitas coisas. Ou eu não as tenho compreendido, por mim mesma.

Ai... Muitas vezes, num suspiro está todo o entendimento. – Mas quem o saberia?



¹ de Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego.