Uma página a mais de mim


Sou clariceana. Mas, ao contrário dela, não tenho a palavra como domínio sobre o mundo: tenho um silêncio periférico. Sou de poucos verbos; meias-frases; muitos sentidos. Sou [e]feito polaroide ao avesso: tateie; pressinta-me; enxergue-me no escuro [se quiser!].


Não me revelo às superfícies: sou profunda – peixe de águas abissais. Sou sozinha por essência, ora gregária – por insistência. Sou alternativa, pois. E conclusiva. Raramente explicativa. Quando menos adversa, aditiva.


Gosto de vida, porque há o amor, e não tenho medo da morte, porque sou abstrata. Sou, também, de flor. Não acredito em ‘para sempre’, mas faço jus ao infinito enquanto houver boas sementes e terras férteis.


Não tenho muito sono à noite: dormito sonhando acordada. Sei, porém, pouco do escuro. Sei dos sóis, que me trazem raios de razão e despertam-me saudade.


O meu pior defeito é ter uma alma. Ou, talvez, a melhor desculpa: ela é quem dá voz a tudo o que penso, e calo [porque há nisto um rastro silabado e incógnito de uma íntima e abismal falta de raciocínio em que me mantenho presa e da qual sou feita].


Qual Cecília, não sou alegre nem triste; tampouco poeta: sou tudo o que sinto e sou ou posso ser e o mais que ainda não sei nem nunca vou saber.   

2 comentários:

Deanna disse...

Lindo! Sem mais.

Marcos Satoru Kawanami disse...

por isso eu disse que tu tens sofisticações que me faltam, sem falsa modéstia.