terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Excertos - [des]aforismos



I
do ínfimo ao infinito
eis a minha conjectura
: o mundo é sempre mais bonito
visto a certa altura

II
asa de imaginação que bate à toa
desconhece o céu: não voa

III
diz-se que a vida é matemática
assim, tal coisa prática
digo que é [meta]linguística
vida humana [inexata], tal coisa mística

IV
the black hole
is not black whole
either a hole


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

nuvens

hoje pintei meus sonhos
em mil desenhos
de nuvens
         só para você ver
e soprei ao céu azul
em direção à tua morada
mas ficaram todas
disformes... estioladas...
         e o dia segue, pois, enevoado
    dentro e fora do peito

: tua janela permanecia fechada

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

interação



o silêncio é inspiração
a palavra é expiração
:
respirar é experiência linguística
poesia é concepção holística

domingo, 18 de setembro de 2016

Presente


Uma fuga perfeita é sem volta é um texto que se tece sutilmente de - um não absoluto suspense, mas - uma história suspensa, na qual se desarrolam imagens, por meio das quais co-criamos (num fio dialogal imaginário) uma outra história em simultaneidade. É uma leitura que se faz - inevitavelmente - com o coração um pouco acelerado e sorriso nos lábios, murmurantes, porque não se contêm ao gesto dos olhos - por vezes, marejados - e que tantas vezes retomam parágrafos inteiros, só pelo puro prazer de admirar sua beleza uma vez mais, e outra, antes de prosseguir.

Esse é o mais recente romance de Marcia Tiburi, uma composição esplendorosa de 600 páginas (não por quantidade, obviamente), na qual Literatura, Filosofia, História e Arte se mesclam em sincronia natural, tanto como panos de fundo quanto em aspectos estéticos da própria obra. Quanto à extensão dessa, divago se não seria ela a metáfora concreta de acontecimentos narrados por um gago? Materialização de suas tão custosas expressões (que são também sentimentos) - problemática do ser e do dizer.

A priori, muitas questões já insurgem no extático mergulho em sua trama: Quem são Agnes, Irene, Ignez e tantos outros? O quê e como lhes vamos atribuindo em nossa construção imaginária, por meio das impressões que o narrador-personagem nos lega? E, por sinal, quem é esse também? Que formas, que corpos - e corpo, aliás, é uma das maiores anamorfoses que há no livro (vide a capa) - vão ganhando, senão meras intangibilidades, mais físicas do que psicológicas?

Início, meio e fim: o primeiro - dizem - toda história deve ter. A meu ver, o processo regressivo (e digressivo) da narrativa faz jus a isso e à suspensão a que me referi; além de alimentar, no leitor, um desejo de que essa história, em contrapartida, nunca termine (eu mesma não o fiz e nem sei quando e se o farei). Quiçá a fuga (não a do fim, mas a que há na trama), como na canção de Paulinho da Viola - "voltar quase sempre é partir para um outro lugar" -, seja um vice-versa, um necessário retorno, um (re)encontro, quiçá...