domingo, 18 de setembro de 2016

Presente


Uma fuga perfeita é sem volta é um texto que se tece sutilmente de - um não absoluto suspense, mas - uma história suspensa, na qual se desarrolam imagens, por meio das quais co-criamos (num fio dialogal imaginário) uma outra história em simultaneidade. É uma leitura que se faz - inevitavelmente - com o coração um pouco acelerado e sorriso nos lábios, murmurantes, porque não se contêm ao gesto dos olhos - por vezes, marejados - e que tantas vezes retomam parágrafos inteiros, só pelo puro prazer de admirar sua beleza uma vez mais, e outra, antes de prosseguir.

Esse é o mais recente romance de Marcia Tiburi, uma composição esplendorosa de 600 páginas (não por quantidade, obviamente), na qual Literatura, Filosofia, História e Arte se mesclam em sincronia natural, tanto como panos de fundo quanto em aspectos estéticos da própria obra. Quanto à extensão dessa, divago se não seria ela a metáfora concreta de acontecimentos narrados por um gago? Materialização de suas tão custosas expressões (que são também sentimentos) - problemática do ser e do dizer.

A priori, muitas questões já insurgem no extático mergulho em sua trama: Quem são Agnes, Irene, Ignez e tantos outros? O quê e como lhes vamos atribuindo em nossa construção imaginária, por meio das impressões que o narrador-personagem nos lega? E, por sinal, quem é esse também? Que formas, que corpos - e corpo, aliás, é uma das maiores anamorfoses que há no livro (vide a capa) - vão ganhando, senão meras intangibilidades, mais físicas do que psicológicas?

Início, meio e fim: o primeiro - dizem - toda história deve ter. A meu ver, o processo regressivo (e digressivo) da narrativa faz jus a isso e à suspensão a que me referi; além de alimentar, no leitor, um desejo de que essa história, em contrapartida, nunca termine (eu mesma não o fiz e nem sei quando e se o farei). Quiçá a fuga (não a do fim, mas a que há na trama), como na canção de Paulinho da Viola - "voltar quase sempre é partir para um outro lugar" -, seja um vice-versa, um necessário retorno, um (re)encontro, quiçá...

6 comentários:

Fabrício César Franco disse...

Gosto de suas análises, mas prefiro - muito muito mais! - seus textos poéticos. Sinto saudades da poetisa!!!

Beijo!

Marcos Satoru Kawanami disse...

O verso de Paulinho da Viola é uma percepção refinada da vida. Digo isso porque, quando visitei o Japão, convidei minha avó (nascida lá) a vir comigo rever sua cidade natal; ela não quis de modo algum, não houve como convencê-la a rever sua pátria. Na época, eu não entendi tanta resistência. Mas, outro dia, minha irmã me explicou: A vó não quis ir, porque a pátria que ela tem na memória não existe mais. Seria como "voltar para um outro lugar".

Rafaela, comecei a escrever em um site no qual talvez vc também queira escrever, o www.wattpad.com

beijo
Marcos

Rafaela Figueiredo disse...

Franco, querido!
Obrigada pela revisita e pela força à Poesia!

Bjos

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Marquitos,
Pois é... É um obstáculo enorme desapegar.

Darei uma olhada nesse espaço virtual, mto embora esteja cada vez mais resistente a eles (com preguiça, sem capacidade acompanhar tanta coisa msm rs).

Bjos

Marjorie disse...

Tão bom passear por esse cantinho que vai, com sua dona, mudandoemudandoemudandoemud... AMOR!

Rafaela Figueiredo disse...

Lindeza da minha vida!


Clovis.

Marcos Satoru Kawanami disse...

o novo cabeçalho ficou maneiro.

=)