quarta-feira, 14 de julho de 2010

"Correndo com tesouras"



“Eu não tinha nada em comum com aquelas crianças. Elas tinham mães que
mordiscavam tirinhas de cenouras da finura de um fósforo. E eu tinha uma mãe que comia fósforos. Elas iam dormir às dez da noite, e eu estava descobrindo que a vida podia continuar muito depois das três da madrugada...”
(p.82)

A primeira vez que vi este filme foi há uns dois anos ou mais. Zapeava a TV, quando passei por um canal – que nem lembro – em que Avril Lavigne atuava (pensei: putamerda, essa guria também é atriz?!); continuando a assistir, porém, percebi que não era ela, mas Evan R. Wood (tava IGUAL!). Passada, pois, a surpresa, apesar do filme já começado, embarquei na história da família Finch – na qual ninguém havia de muito normal (ou nem um pouco). E falar disso é essencial, porque além de o patriarca da família, o Dr. Finch, ser um terapeuta psiquiatra (nada convencional), o filme abarca essa temática.

São numerosas as questões para comentar, mas esclarecendo um pouco de tudo (agora que, anos depois, comprei filme e livro quando os descobri!): traçando um paralelo entre as duas obras, o enredo baseia-se no dilema de Augusten Burroughs, um adolescente, cuja mãe (seu ídolo desde pequeno), Deirdre, louca (literalmente) por se tornar uma famosa poetisa, tem disfunção bipolar; desmorona sua imagem de ídolo e amputa a infância de um filho não menos... perturbado. Este, cujo pai, Norman, um professor, – alcoólatra – nunca foi muito presente; que, com o passar de anos e incontáveis brigas matrimoniais, após separar-se de Deirdre, torna-se ainda menos.

O jovenzinho, que é cheio de manias (como polir objetos metálicos, manter o cabelo sempre perfeitamente penteado, não permitir um fiapo sobre a roupa etc), em decorrência de todos estes problemas, e com a agravada doença da mãe, acaba sendo “dado” para adoção ao próprio médico da mesma, o Dr. Finch (!). Quando Augusten chega ao seu “novo lar” é que toda a comédia (apesar do drama sobreposto) se inicia. A mansão cor-de-rosa, e decrépita, em meio a uma rua de imaculadas casas, será a metáfora/metonímia da Loucura – como em O Alienista, de Machado de Assis.

Lá, também são assistidos pacientes do Dr. F., alguns dos quais acabam assistindo (!) de vez com a família, que é composta por aquele; Agnes (sua esposa, talvez a menos louca); Hope (filha mais velha, que tudo pergunta à Bíblia); Natalie (a mais nova, pseudo Avril – rs – que vive em conflito com Hope); Pooh (um menininho adotado, que faz coco na sala); uma nação de baratas que habita, sobretudo, a cozinha; uns gatos que compartilham a ração com Agnes; e Loranne (esta só no livro – uma paciente neurótica obsessiva compulsiva por limpeza – imagine!).

Augusten (ah, ele é gay!, e deseja ser cosmetologista – alguns diriam cabeleireiro, mas...) envolve-se com outro filho adotivo dos Finch, Neil Bookman, que não mora com eles – pois, revoltado por não ter um quarto na casa, saíra dela. Enquanto isso, Deirdre também alimenta um caso homossexual, o que causa ainda maiores conflitos psicológicos ao adolescente, que já supunha ser uma doença (genética) a sua sexualidade.

Em plena década de 70, com seus 16 anos, Augusten reflete uma vida arbitrária (porque sem rédeas), regada a drogas e bebidas alcóolicas – apesar de não ser um mau menino. A falta de equilíbrio – em todos os sentidos – na casa dos Finch desperta-lhe a necessidade de figuras que o amparem, que o guiem ou que, ao menos, o coíbam de determinados atos, o que todo pai e toda mãe o fazem (ou, ao menos, deveriam). Então, ele foge para seguir a desejada ‘carreira’ (mesmo não tendo, praticamente, estudado) na grande cidade de NY... (mas acaba virando escritor; não dos grandes, mas um).

Então, correr com tesouras, um risco que quaisquer pais não permitiriam aos seus filhos, torna-se nada mais do que recortes da aventura que é a própria vida (?)!

7 comentários:

Tê disse...

Quero ler!!! xD E quero ver!
O caso do menino é crítico. Mas assim, pelas tuas "mãos", parece bão!
Bjk

~*Rebeca e Jota Cê*~ disse...

Rafaela,

Taí, gostei da dica. Vou ver se alugo esse final de semana.

Beijo imenso, menina linda.

Rebeca

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Rafaela Figueiredo disse...

lindezas,
que bom!
acho que dá pra divertir. ;)

beijobeijocorrendo(sem tesouras)

~*Rebeca e Jota Cê*~ disse...

Rafaela,

Essa beleza delicada das palavras, não nega a sua emoção. Sempre que venho aqui sei que vou encontrar doses intensas da sua essência.

Beijo imenso, menina linda.

Rebeca

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Layla disse...

Lembrei que você me contou sobre esse filme e só encontrei sinopses rs
Vou tentar comprar também, fiquei ainda mais curiosa :)

Beijo!

Emanuelle disse...

Olá Rafa...puxa, que filme dramático e triste!!Não consegui ver comédia nele.Confesso que com esse título, quem sabe não locaria, rs...realmente, permite várias discussões...mas de 'louco todo mundo tem um pouco'...coitadinho do Augusten!!Na verdade as famílias tem que ter um determinado comportamento frente as regras ou leis da sociedade, e as que não tem, são ditas 'loucas' e repugnantes. Enfim, adorei o filme!!Ele consegue ser dramático do começo ao fim...beijosss e obrigada!

Rafaela Figueiredo disse...

Chuchua,
quando quiser, eu te empresto! ;)
pode até gravar.. [shhh] rs

beso

.

Lindeza,
como vc, eu sobreponho o drama à comédia, mas não consigo deixar de vê-la. rs
claro que não em um todo, mas em algumas passagens [no livro é o contrário].
realmente, Augusten é um grande driblador; superando tudo aquilo...

bem, que bom que cê gostou do filme! :)

beijobeijo