domingo, 1 de dezembro de 2013

Incongruente

dizer que os meus segredos
(mais que absurdos)
guarda
o meu fiel criado-mudo
seria tão clichê
quanto mentir um arranhado
som agudo
que sai de uma vitrola
imaginária
só pra me convencer
de que essa solitude
é tudo
que eu não quero ter
(de ouvir)
da boca dessa noite
tão dissimulada,
em que se me rumina
o que eu nem sei
... cansada.

é minha mão
(`)a qual não cala 
a solidão
doce ou selvagem
das palavras.
é o murmúrio de meu grito,
preso,
que me enfada às trevas
do porvir 
- luzir incógnito -
onde meu peito
vela a ilusão do tempo-espaço,
enquanto eu
pedaço
lasso
me re-desfaço
... porque renasço.



10 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

Rafaela,

Gostei das rimas, e de sentir o teu estilo marcadamente teu: pensar em um nível de razão acima do senso comum, e além do que a racionalidade já tem dito, mas mantendo a comunicação direta e eficaz.

beijos
Marcos

Rafaela Figueiredo disse...

É um bonito olhar sobre minhas palavras, Marcos.
Obrigada! :)

bjo

Fabrício César Franco disse...

Poetisa,

O melhor de todo o périplo do poema é chegar ao final, que tem o sabor de um recomeço. Não do poema em si, de seus dilemas e agruras de todos nós, mas de uma possibilidade de fazer diferente, novas rimas, novos apontamentos.

Beijo grande!

Fred Caju disse...

Detonou...

Rafaela Figueiredo disse...

Poeta Franco,
Q feliz q o recomeço surja nos meus versos: acho q é uma boa razão para seguir; não parar - mesmo no vazio criativo.

Beijão

.

Caju,
Vindo isso de ti, me acho o máximo! Rs

Bjs

Lu Rosário disse...

Ler o que você escreve traz uma sensação boa, parece que nos poema há uma circularidade..entre rima, poesia e vida.

E, oh, os hiatos são essenciais.

Beijão!

Lu Rosário disse...

Ah, e Feliz 2014!
Que este nos seja produtivo! :D

Lu Rosário disse...

*ano

Linguagem e Poesia - Bruno de Andrade disse...

Preciso confessar-lhe, amiga, que costumo ler seus poemas uma, duas, três ou quantas vezes forem necessárias para que eu consiga encontrar uma porta de entrada para a interpretação, ainda que esta não chegue sequer a atingir as profundezas semânticas dos poemas. Tal empresa me levaria a compor um ensaio literário, o que não caberia neste espaço restritivo dos voos do espírito analítico. Mas leio-os mais de uma vez também porque não os compreendo inicialmente; em parte, por limitações minhas; em parte, porque a poesia reelaboram as formas como percebemos o mundo, como percebemos as nossas relações com o mundo, como sentimos o nosso interior em relação com o exterior. A poesia perturba nossos esquemas de percepção-cogniçãocomuns, daí poder-se criar imagens belas porém fantásticas, irreais, tais como "a boca dessa noite", "sal de uma vitrola imaginária". Na escola, aprendemos que esses efeitos estéticos são figuras de linguagem, mas são poucos os professores (não lembro um sequer) que chamem a atenção para o fato de que as figuras de linguagem, por exemplo, metáforas, sinestesias, personificação (ou o esquisito "prosopopéia")não são meros recursos de expressão linguística, mas "espaços significativos" onde linguagem e cognição se encontram, se tocam. As figuras de linguagem revelam as possibilidades de percebermos o mundo de modos diferentes, de reorganizar, de reelaborar, reestruturar nossas experiências de mundo, enfim, de representar essas experiências de modos diversos, incomuns e criativos. E você é mestra nessa arte, amiga! Por fim, quero apenas, além de parabenizá-la, destacar o que me foi possível apreender, ainda que de modo grosseiro. Com base na materialidade linguística do poema, na primeira parte do poema, um traço semântico recorrente é o 'ignoto'. Palavras como "segredo", "dissimulada", "criado-mudo", "solitude", "mentir", "imaginária" parecem testemunhar a favor dessa compreensão. Na segunda parte, percebo o esforço por romper o silêncio, o ignoto. Provam-no as palavras "murmúrio", "grito", "renasço". A própria "solidão das palavras" é uma solidão que se enuncia, que se verbaliza, que rompe o silêncio, que se abre à voz que ficava presa à ignorância do "porvir". Isso não é tudo, mas o contraste entre a solidão silenciosa e a solidão pronunciada não poderia continuar ignoto.

Beijos! Saudades!

Rafaela Figueiredo disse...

Lu, lindeza!
obrigada. q as palavras possam contiunar nos [en]cantando e ligando.

beijo

.

Meu amigo querido,
que saudade!
Saudade das suas reflexões sempre enriquecedoras e gentis; saudade de teus pensamentos e conversa metafísicos.
Seu olhar, aqui, mais uma vez, me deixou comovida, pq sei o tamanho da sua compreensão [incapacidade q nada!] e o da minha expressão - q é bem menor do q o q vc vê nela.

Um beijo grato e feliz pela revisita