segunda-feira, 22 de abril de 2013

Pormenor



Quando eu velha for,
Os meus versos de dor
Não caberão à realidade
De mi'a curta mocidade

E as muitas páginas vazias
De mi'as remotas alegrias
Serão, no silêncio adormecido,
Sonhos que não foram lidos...

E esse meu estranho jeito
Ensinar-me-á ao peito
Que a saudade, sim, é triste

E que ela hoje não me existe;
Lá, eu sentirei - quieta -
Da que não que havia, mas me fez poeta.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Brasil




Tanta seca para pouca chuva  
Tanta vaca para pouco mato 
Tanto pé para pouca uva 
Tanta rã para pouco sapo 
Tanto frio para pouco casaco 
Tanta gente para pouco espaço 
Tanto chão para pouco vassalo 
Tanto reino para pouco palhaço 
Tanta boca para pouco prato 
Tanta merda para pouco vaso 
Tanto drama para pouco caso 
Tanto azo pro porco Estado!

sexta-feira, 22 de março de 2013

Livro-me


Abro tuas entranhas
Saltam palavras desobrigadas
- Enredo de estranhas larvas -
Com que me alimento.
Aos poucos, borboletas [no estômago]
Levantam voos
Que, em meu pensamento,
Desenham horizontes infinitos
Com a beleza de seus movimentos
Para sempre, ali, inscritos...

segunda-feira, 11 de março de 2013

Liquefazer


Amo
A colisão inevitável
Dessas carnes
Nossas.
Reviradas, sucumbidas...
Amo
O arroubo ardente
Me embalando
Na extensão
Da tua vontade
Que vai fundo
Em mim.

Movimento-me 
Fervilho 
Estremeço... 
Beijo-te 
Consumo-te
Arremeto-te 
E me arremesso 
Nesse abismo de desejo 
Em que 
Te desembrulho 
Engolindo todo
Todo... 
O (meu) orgulho.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

esse não saber


nem um anjo 
veio me dizer: vá ser gauche 
também você!
talvez, porque tão cética;
talvez, tão amadora...

hei eu, pois, de seguir
a torto, a cego e a esmo
neste vago e real sonho
nas vielas da poesia
lado a lado a meus demônios.