segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Amor

Ainda me lembro daquela madrugada. Tentávamos nos despedir, havia quase três horas, no portão de casa. As mãos não se soltavam, tampouco as bocas, ainda pouco íntimas; sedentas uma da outra. Sobre nós, o orvalho derramava seu álgido hálito, e nos aquecíamos no abraço. No intervalo em que os olhos se encontravam, só diziam uma coisa compreendida no silêncio...

Cheguei a empurrá-lo umas duas vezes, para que partisse, enfim. Mas me beijava, delicadamente, o pescoço; arrepiava-me o corpo, mantendo-me junto de si.

O quintal, pouco iluminado pela parca luz do poste da rua, propiciava o clima. Foi quando outra luz - do pensamento - fez-me, de repente, puxá-lo pelo braço e, portão adentro, arrastá-lo ao corredor externo, que conduz à área, aos fundos. Tropeçamos nos vasos de plantas da minha mãe, espalhados no caminho, mas chegamos ilesos. Havia pouco mais de duas semanas que nos conhecíamos e estávamos no corredor escuro da minha casa! - ambos plenos de intenções.

Com ruidosa abertura do tal feltro do seu bolso da bermuda, retirou uma pequena embalagem aluminizada. Mostrou-me. Sorri. Sorrimos. Encostado na parede, me puxou pela cintura e beijou-me com vigor. As línguas misturavam-se; umas mãos abriam zíperes com urgência; outras rasgavam a pequena embalagem... Virou-me; amparei-me na parede em frente e, com espantosa perfeição, moldamo-nos, ali, um ao outro. O orvalho, então, nos bafejava. Era uma noite estrelada...

Foi a primeira vez que nos dissemos amor sem nos olharmos nos olhos.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

talvez

talvez o que escrever
revele-se bonito e não
mais uma folha morta;

talvez queira dizer
que as árvores são muito mais
que plantas: são dádivas;

talvez já saibam disso
e eu tenha, assim, gastado
uma dadivosa vida;

talvez, no entanto,
eu nem quisesse escrever,
dizer ou [ter de] viver...

- talvez perder a vida
não seja assim tão triste
quanto pensá-la perdida.

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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

"Melancholia"


Duas irmãs. O casamento de uma delas, "bancado" pelo riquíssimo cunhado. Conflitos familiares ao longo da festa. Melancolia. Traição. Separação. Melancholia. A Gruta Mágica. O Fim do[s] mundo[s]. Assim se resume - sem menoscabar, mas por medo de tocar o brilhantismo intangível e para evitar desvelo - o último longa, obra-prima expressionista, do cineasta Lars von Trier.

O cenário é praticamente único: um castelo europeu - um "mundo" [de luxo] onde os dramas se arrolam sitiado por realidades praticamente ignoradas; a espera da espetacular passagem de um planeta azulado [Melancholia] pela Terra; o medo de Claire de morrer e o descaso de sua irmã recém-casada-separada, Justine, por viver.

A música que permeia todo o filme também é única: Tristão e Isolda, de Wagner - a mais perfeita expressão de angústia e sei-lá-mais-o-quê; capaz de dublar quaisquer diálogos e arrebatar os mais insensíveis ouvidos.

Na trama plena de simbolismos, o que une e sugere a ideia de mundos está na manifestação do interior das personagens refletida no espelho do mundo exterior. Ou seja, Melancholia, Terra e a Gruta Mágica [abstração do pequeno filho de Claire para salvarem-se do inevitável Fim] são, metaforicamente, eles mesmos.

O casamento - início de uma nova vida - é o primeiro dos Fins, pois que não dura mais que um dia. A constatação do possível choque do planeta azulado com o planeta azul, a Terra, é o maior deles. Eis [numa premissa um tanto pessimista] a inescapável Melanc[h]olia - mal-estar de uma civilização sem forças nem muitas razões para [sobre]viver - a engolir o planeta; dando-se, pois, o Fim do Mundo.


Assista ao trailler aqui.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

poesia líquida


nunca aprendi poesia.
nunca aprendi
lapidá-la:
poesia não é pedra;
poesia é água.
água
com que lavaria as mãos
e que deixaria, por si,
em uma superfície
secar-se...

mas ela não seca.
poesia é mar.
poesia é mágoa.
água minha:
poesia lágrima.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

a culpa é da Eva!















e da clareza, então, desfez-se a luz.
a mulher pura dessacralizou o Éden.
Noé salvou animais - não é?
o tal do Christo se rendera à cruz.

pobre Joana D'Arc: fogo em vida.
os índios foram, só, civilizados.
Bomba H: um grande cogumelo irado.
Ditadura: 20 'dias' de novas medidas.

o Trade Center era so much tall.
o Tsunami, um fenômeno mal!
o Haiti urgia mudanças - sim?

e o mundo inteiro era um gran jardim.
mas um pedaço, apenas, da maçã...
e a humanidade nunca mais foi sã.