quinta-feira, 29 de outubro de 2015

ao contemplar Dalí


interminável como um rio
flui de instante a outro instante
sempre, sempre e em um só sentido
e nadamos em seu mistério assonante

seu caminho previsível e consistente
é medido por nascentes e poentes
ei-lo, pois, esse processo de repetição?
nem tudo o que repete é um refrão

e se a medida oficial do mundo
cuja frequência de oscilação
dos átomos de raro césio
precisa-nos cada segundo em vão?

dentro das coisas inapreensíveis
seguirá guardado o seu portento
: indicam horas os relógios
mas nunca dizem o que é o tempo

quinta-feira, 14 de maio de 2015

palco


reencenar
a cada dia
aquilo que falhou
aquilo que foi ruim ou bom
repetir
de um jeito diferente
os erros e os acertos 
a tentativa de sair mais cedo
para o trabalho
o desejo de voltar cedo também
para a casa
a roupa gasta, mas com um sapato novo
o perfume de ontem e anteontem e antes de anteontem
sobre a pele de hoje
o penteado, a maquiagem
sobre alguma cicatriz
[ainda que indeléveis quaisquer cicatrizes]
redizer
o bom dia, o boa tarde, o boa noite, o feliz aniversário, o feliz dia das mães, dos pais, dos avós e das [crianças
refazer
aquele feijão e o arroz
sem queimar, sem salgar demais ou de menos
voltar
à mesma paisagem que compôs
aquela foto sobre a cabeceira
a paisagem, que é já outra
a companhia, que é já só lembrança
e o sorriso, que é já menos branco
reescrever
aqueles versos
outrora escritos por alguém
pois que todas as palavras não são mais que ecos
e nem mesmo o silêncio as contradiz
posto que é reprodução do mesmo cansaço à voz
reencenar, pois,
todos os dias
uma nova e mesma vida
ao inevitável e imprevisível
cerrar de suas cortinas.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

madrugada


minha noite passa
como uma vida sem estrelas
- trama sem drama -
e adormece sozinha
na cama
enquanto, à cabeceira, tremeluz
a chama
de um candelabro
feito de angústia, solidão e lágrima

quarta-feira, 1 de abril de 2015

[im]permanência

agora fica comigo
   apenas solidão
     [afora cheiros, fotografias, reticências]
       noite após noite
         me acostumo à escuridão
           silenciosa dos gestos guardados
              à medida que a saudade
                 já faz moradia
                   e não aceita companhia
                      em meu peito triste
                         pois que pouco não é
                           quando muito ainda existe


sexta-feira, 13 de março de 2015

meus [uni]versos [lit]erários





sou barroca quando fechos os olhos
ao mistério e vejo o mundo pelas mãos
no meu declínio epicurista-pagão
sou neoclássica quando me expando
e do meu corpo nascem paisagens
e sou árvores sou terra sou mar ilha
sou romântica quando meu coração e espírito
despertam o idealismo lírico e são capazes
de morrer para serem livres e, enfim, viver
sou realista quando, naturalmente, determinada
ante os fenômenos da vida, me interpreto
na ambiguidade a mais humana hipocrisia
sou parnasiana quando equilibro meus desatinos
fazendo parcos versos decassílabos
com minha racionalidade fria
sou simbolista quando, no mais intrínseco de mim,
escamoteio a realidade sã e me eviscero dos demônios
dormentes, decadentes, na degenerescência vã
sou modernista quando, enfim, desprendo-me
de quaisquer grades e sigo na univastidão
de minha idiossincrática retangularidade