domingo, 29 de maio de 2016

portal


à incandescência celeste
a pairar
acendo um candelabro de estrelas
cuja luz projeta a eternidade...
     um feixe vacila
     no chão do presente
     outro alça voo
     como aforismo do futuro
descortinando a realidade
silhuetas da existência
entrementes
bruxuleiam no pequeno infinito
de meu olhar

terça-feira, 26 de abril de 2016

Game of Thrones, Renato Russo e o Brasil


O que o Brasil, aquela música do Renato Russo e Game of Thrones têm em comum? Não é só o inverno que nunca chega. E para quem está se perguntando o que o Renato tem a ver com a história, não se trata tampouco daquela canção "mas é claro que o sol vai voltar amanhã...". Então, calma, a gente chega lá. 

Em uma terra distante, chamada Westeros, e na América do Sul, numa terra chamada Brasil, a batalha dos (muitos) reinos se prolonga. Se Stannis Baratheon – com sua frieza e a extrema crueldade de quem lança a própria filha a uma pira – tem por semelhança Eduardo Cunha (fazendo o mesmo com a Presidente e com o povo daqui), mas foi à derrota pela espada de Brienne de Tarth, é obrigatório seguirmos com a esperança de que a nossa Brienne – Juiz Moro? – ainda faça o mesmo. 

É aos domingos que as famílias se reúnem, é aos domingos que se costuma ir ao circo, foi no penúltimo domingo que nem precisamos pagar ingresso (porque já pagamos constantemente a conta) que aquela horda de Filhos da... Harpia entrou na arena, e os jogos de intriga deram no que deram. E agora? A Presidente Dilma – tal qual Rainha Cersei (mas que também possui um tanto de Jon Snow no curriculum) – perde temporariamente o trono (de ferro)? Porque já segue sob xingamentos e cusparadas (opa, o cuspe não foi bem para ela, mas vai lá).

Resumo da ópera: somos todos Tyrion Lannister (exceto pela riqueza): marginalizados, apequenados (pela barbaridade civil), deformados (pela batalha da sobrevivência), mas sem abrir mão de boas doses (não de chopp, mas) de vinho, para encarar essa bagaça. Porque essa história de várias versões, em que nem tudo é ficção e nem tudo é verdade, e em que tantas vezes é difícil distinguir uma da outra, infelizmente nem toda está ou estará nos livros, mas o Norte se lembrará... o Sul, o Sudeste, o Centro-Oeste e o Nordeste também. 

Quiçá nossa Danaerys Targaryen esteja bem perto, porque já não há São Jorge ou fé que deem conta da situação. E que, com muita resistência, com a espada nas mãos e a canção de Renato, cantada como um hino – tão mais pertinente nestes “dias desleais” –, sigamos, pois; e os maus que se cuidem e atentem ao “sopro do dragão”. 

sábado, 14 de novembro de 2015

Fishman, uma obra-prima




"- Quando foi? - O quê? - Que você deixou de ser... a minha mãe? - Eu ainda sou. Ou não sou? - A minha mãe? - É. - É? - Eu não sei! - Não sei!  - Nem eu! - Nem eu..."

Um barco. Espécie de aquário... Do pensamento ou do tempo (há diferença?). Espécie de bolsa... Amniótica? Um lugar, afinal, em que dimensões diversas se entrecruzam. Dois homens. Homens? Peixes? Seres. Matérias espirituais (com toda a contradição que isso constitui). Presenças e ausências coexistentes. Diálogos e incomunicabilidade. Intangibilidade e contatos (de vários graus). 
O(s) universo(s) de Fishman: consagração daquilo a que chamamos Arte. Arte, porque ainda não criaram um nome - e eu não ousaria - para a maestria de uma mescla de gestos, expressões e verbos, como versos de uma poesia inefável.
Quem dera eu pudesse, pois, dizer ou escrever sobre a realidade (seria mesmo?) vivida naquela sala de teatro...

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

ao contemplar Dalí


interminável como um rio
flui de instante a outro instante
sempre, sempre e em um só sentido
e nadamos em seu mistério assonante

seu caminho previsível e consistente
é medido por nascentes e poentes
ei-lo, pois, esse processo de repetição?
nem tudo o que repete é um refrão

e se a medida oficial do mundo
cuja frequência de oscilação
dos átomos de raro césio
precisa-nos cada segundo em vão?

dentro das coisas inapreensíveis
seguirá guardado o seu portento
: indicam horas os relógios
mas nunca dizem o que é o tempo

quinta-feira, 14 de maio de 2015

palco


reencenar
a cada dia
aquilo que falhou
aquilo que foi ruim ou bom
repetir
de um jeito diferente
os erros e os acertos 
a tentativa de sair mais cedo
para o trabalho
o desejo de voltar cedo também
para a casa
a roupa gasta, mas com um sapato novo
o perfume de ontem e anteontem e antes de anteontem
sobre a pele de hoje
o penteado, a maquiagem
sobre alguma cicatriz
[ainda que indeléveis quaisquer cicatrizes]
redizer
o bom dia, o boa tarde, o boa noite, o feliz aniversário, o feliz dia das mães, dos pais, dos avós e das [crianças
refazer
aquele feijão e o arroz
sem queimar, sem salgar demais ou de menos
voltar
à mesma paisagem que compôs
aquela foto sobre a cabeceira
a paisagem, que é já outra
a companhia, que é já só lembrança
e o sorriso, que é já menos branco
reescrever
aqueles versos
outrora escritos por alguém
pois que todas as palavras não são mais que ecos
e nem mesmo o silêncio as contradiz
posto que é reprodução do mesmo cansaço à voz
reencenar, pois,
todos os dias
uma nova e mesma vida
ao inevitável e imprevisível
cerrar de suas cortinas.