quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Alguma coisa


Eu, que não sou Caetano,
Sinto no meu coração
Esse pulsar indiscreto
Que nem sequer o baiano
Soube - inda que poeta -
Em sua obra-canção
Chamá-lo mais do que coisa.
Não sei, pois, se é melodia
Ou, de ti, só nostalgia.
Ponho, então, nesta loisa
O que, dentro, me agonia.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

(Poe)mar



La palavra es hecha nau en la mar
Si el marinero que la conduce - poeta
Al escribir en la arena en línea recta
A los pensamientos nuestros hace ondear

Delirios mansos que, de par en par,
De viento en popa, un viajar encetan;
De gota en gota, la inmensidad completan
Pero su misterio es un reverberar

En las curvas del hemisferio en que
El horizonte, inalcanzable, cae.
Y las aguas verdes vistas, pues, de aquí

Son cual vestido moviéndose al viento
Que la poesía bulliciosa va
Tejiendo a la faena en su movimiento.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

[ped]alar

pé de alar
— pedal 
de ar...

desprendo-me
transgrido a gravidade
cruzo nuvens
deixo-me ir
ao vento
reinvento-me;

para me livrar
da vida
[tão terrena]
assim
me movimento;

soltando as mãos
abrindo os braços,
porque meu equilíbrio...
jamais dos pés!
se não puder
voar.


domingo, 1 de dezembro de 2013

Incongruente

dizer que os meus segredos
(mais que absurdos)
guarda
o meu fiel criado-mudo
seria tão clichê
quanto mentir um arranhado
som agudo
que sai de uma vitrola
imaginária
só pra me convencer
de que essa solitude
é tudo
que eu não quero ter
(de ouvir)
da boca dessa noite
tão dissimulada,
em que se me rumina
o que eu nem sei
... cansada.

é minha mão
(`)a qual não cala 
a solidão
doce ou selvagem
das palavras.
é o murmúrio de meu grito,
preso,
que me enfada às trevas
do porvir 
- luzir incógnito -
onde meu peito
vela a ilusão do tempo-espaço,
enquanto eu
pedaço
lasso
me re-desfaço
... porque renasço.



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Consciência (d)e Cor(po) afrodescendente


(...)

Tal qual Machado de Assis (sempre tão ilustre) delata em seu conto Pai contra Mãe, afirmando que “(...) a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel”, assim o fizera a corte (o krátos).

Enquanto sinhazinhas, hierarquicamente, belas e castas eram protegidas em suas alcovas imaculadas, nhonhôs manifestavam livremente sua libido sobre as negras (e também negros, quem o dirá?). Essa licenciosidade era abstida sobre as brancas, pois elas eram reservadas à reprodução, como também – escusando a ironia – à punição das escravas, que “se deitavam” com seus maridos, ora.

Os status foram, desse modo, se delineando ao longo dos anos e o ideário de dominação-subordinação alicerçou a problemática das subjetividades femininas. Tal ambivalência trouxe-nos, mais tarde - quando a colônia foi-se tornando uma nação - um grande obstáculo no caminho do reconhecimento legal de uma heterogeneidade étnica, sem o privilégio ou a predominância branca. 

Ao refletirmos acerca disso, podemos concluir que, através do esforço por essa assunção das miscigenações, o preconceito contra pobres se materializou sobre os negros (e negras), em forma de rebaixamento social, uma vez que sua origem era assimilada por uma visão eurocêntrica – afinal, o negro trazia na pele o “gene inferior”; que, contudo, sobrevivia a todo padecimento e que devia incorporar os hábitos e língua não-familiares, por bem ou mal, enfim. O término da escravidão representou, então, uma preocupação elitista; nesse sentido, a assimilação do conceito de igualdade foi – e ainda é – um processo lento e custoso.

Apesar de, é inegável que reconhecimentos importantes foram conquistados; que nossa evolução ontogênica continua em ascendência, o que, de fato, se deve muito mais a experiências nas buscas por novas posições hierárquicas na pirâmide da vida (social), do que à permissão dada para isso. 

(...)

A queda dos estereótipos não é algo totalmente efetivado, todavia as condições formam, hoje, um novo cenário público no país. A própria assunção do Governo no que tange à tentativa de nos compensar os danos causados pelo legado escravocrata; a implementação de estudos de origem africana nas escolas e universidades que se faz presente; a fomentação das indústrias no mercado de cosméticos voltados à mulher negra, em variedades de oferta; a exploração da beleza dessa mulher, nas telas de cinema, TV e outdoors; a valorização da “afroarte” – tanto no aspecto musical (em que se destacam nomes como Sandra de Sá, Paula Lima, Elza Soares), quanto no literário (como Elisa Lucinda, Conceição Evaristo) etc.

Tudo isso se apresenta na cultura nacional como elementos de nossa inserção em outro tipo de memória do país, agora, um pouco além de personagens como Bertoleza (a submissa) e Rita Baiana (a sensual) d’O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

(...)

Ficam as esperanças de que a construção de uma unidade e consciência (para além de todos os 20 de novembro)  represente a prosperidade de uma nação - mundo! - sem ambiguidades sociais ou raciais e a de que a dignidade nos vista e proteja, em nossa imensa finitude coletiva e humana.