segunda-feira, 4 de abril de 2011

Geometria de amor




Tenho um amor

que, de tão fresco, apanha

hieróglifos de vento

e sopra, em bocas

de suspiros simultâneos de segredos

partilhados, mil sorrisos;


tenho um amor

de vidro opaco, desfazendo-se

[partido] há tantos

anos panos planos

[corroídos];


tenho um amor ensanguentado:

drenado, drácula, dramático

- um fino fio desatado

em gotas álgidas de vida;


tenho um amor

de carne e osso, e ombros prestes,

que nem um delicado algodoal

ousara ser;

que a mim, de mim, não pede nada

apenas é;


tenho um amor

asas de beija-flor, entre a véspera e a saudade;



tenho um amor

célula-tronco - de umbigo

seco, brotando em uma gaveta;


tenho um amor

sessão da tarde; escapulido

num bocejo que um trem

das cinco; um barco para algures

deportou;


tenho um amor

casquinha seca de ferida

em meu joelho de menina;


tenho um amor

anúncio de jornal barato!

[PÁGINA INTEIRA];


tenho um amor

de porcelana, pólen à brisa,

recém-nascido,

pétala de apenas bem-me-quer;


tenho um amor

que não se explica

- tal [dis]léxico;


tenho um amor

assim, que nunca conheci,

entanto sempre houve em mim.


Amor dodecaedro

"pr'além de toda matéria esparsa em números".¹




¹verso de Drummond [adaptado] - poema 'Escada'.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O código da pálpebra



Assisti ao sensacional "Le Scaphandre et le Papillon", uma metanarrativa sobre um homem, Jean-Dominique Bauby, que escrevera um livro [homônimo do filme] durante os 15 meses que passara em um hospital: vítima de uma paralisia física total, conhecida como Síndrome Locked-In.

Mas como ele pôde escrever tal livro é a pergunta iminente. Jean-Do, com a ajuda de Claude Mendibil [sua 'intérprete'], transmitiu cada palavra - letra por letra - usando apenas o olho esquerdo [que era tudo o que ele podia mover]. Como? Um alfabeto de ordem decrescente de utilização na língua francesa fora o instrumento possibilitador de tal comunicação.
Assim, Claude soletrava-lhe e, com uma piscadela, o admirável paciente confirmava a letra desejada. Quando fechava o olho por alguns segundos, significava o fim de uma sentença ou parágrafo. Duas piscadelas também enunciavam quando necessário: era um 'não'.

É ou não para morrer de chorar?!

Apesar de uma condição, por muitos [e, por algum tempo, até por ele próprio], considerada vegetal, Jean torna-se o mais puro significado de viver. O escafandro [associado à prisão de sua doença] e a borboleta [ao seu pensamento - única liberdade] são, pois, o inexorável sentido da vida: a viagem interior, o mergulho em nós mesmos somado ao voo da imaginação, sob a redentora faculdade da razão.



*Jean-Do faleceu poucos dias após a conclusão de seu livro.


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quinta-feira, 10 de março de 2011

Re: a um email carinhoso

Nas águas de março, sob a folia molhada da Lapa, você me veio feito presente de aniversário.
Em poucos dias [noites, madrugadas], escrevemos já alguns capítulos [ine]narráveis de um diário que promete não se fechar tão rápido.
E se eu disser que me apaixonei será precipitado?, mas quem disse que isso deve demandar muito ou pouco tempo?!
Porque você me faz sorrir, me faz sentir, me apreende e me apraz e tanto, tanto mais...
E enquanto nossos lábios se encontrarem e deles desprenderem-se estrelas coloridas, ao vento que varre os tapetes de flores sob nossos pés flutuantes, minha vida será sempre um filme de Almodóvar ou Godard...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Fragmentos para se ler em qualquer ordem


Para ocupar o vazio insidioso, tentei, por vezes, fazer um poema concreto. Mas, há tempos [outrora doridos], não me escapa um verso, uma rimazinha só. – E naquele eu caí e ainda me encontro...

Aprendi, com essa ausência, a diferença básica entre pausa e interrupção: uma é para recomeço; outra, para subsistência. – A associação fica a gosto!

Amanhã, quiçá, descobrirei sua causa. – A casa sou eu.

Confesso, para justificar, que a minha inteligência [ou capacidade organizacional], há um tempo, fora se instalar n’algum cortiço meia-boca cuja origem desconheço. – Sua casa não sou mais eu.

Falo pouco, pois, não por fazer jus àquela ideia de que sábio é quem ouve, mas porque há uma [in]consciência de outra ordem, absolutamente inferior à que se emprega socialmente pelos outros seres, estes com os quais, em grande maioria, tenho abdicado contato. – Quando sim, no entanto, esforço-me para parecer compativelmente... agradável. Juro. [E quem jura não sabe SE mente.]

Não queria falar de sensibilidade, contudo... penso que ela seja uma forma de inteligência. – Ando tão in-sensível... [“O peso de sentir. O peso de ter que sentir!” ¹]

À probabilidade de ter realizado um aborto natural sou imensamente grata. – Porque pr’além de todo desejo há, felizmente, o Destino...

Não sei quantas vidas serão necessárias para entender esta! – O espiritismo não tem me explicado muitas coisas. Ou eu não as tenho compreendido, por mim mesma.

Ai... Muitas vezes, num suspiro está todo o entendimento. – Mas quem o saberia?



¹ de Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego.