EU ainda quero você. Sim! Mas, olha, vamos fazer diferente agora? Entre nós não há poesia: nossa comunicação não conjuga meios-termos. Me confundo toda com pronomes quando lhe falo, por exemplo – não existe um tratamento; próclises, mesóclises e ênclises não têm relevância alguma: minha língua não precisa de regências – só da sua! Você (só) sabe a minha tecla SAP. E, ainda assim, repare, insisto: falo mil linguagens e bobagens. Deixa as minhas falas, (des)coordenadas, se subordinarem à sua boca... adjetiva restritiva reduzida infinitivamente à minha. Deixa eu te puxar pela gravata (que adoro, acetinada, sempre a combinar com a camiseta de malha, por debaixo da camisa social alinhada); deixa eu arrancar teu paletó, em advérbio de-va-gar; me vestir, depois, com ele. Não, não toque ainda em nada! Nosso gosto em língua orelha peito, só... só desse jeito. Deixa eu lhe tirar o cinto preto e, no maior clichê, bater de leve em sua face imberbe. Deixa, no teu abdômen, seco, eu beber o – derramado sem nenhum cuidado – vinho tinto que você comprou, há pouco, no mercado. Mas continue aí deitado. Sabia que o botão da sua calça está gelado? E estas meias? Ora, tire, tire-as! Você veio ao mundo, agora, (só) para mim... Shhh, não fale nada. Deixa que apenas seja a minha voz a distinguir os vocativos de você. Só não deixa, no entanto, que, de hoje em diante, eu diga ainda que TE AMO.quinta-feira, 1 de abril de 2010
2 medidas [II]
EU ainda quero você. Sim! Mas, olha, vamos fazer diferente agora? Entre nós não há poesia: nossa comunicação não conjuga meios-termos. Me confundo toda com pronomes quando lhe falo, por exemplo – não existe um tratamento; próclises, mesóclises e ênclises não têm relevância alguma: minha língua não precisa de regências – só da sua! Você (só) sabe a minha tecla SAP. E, ainda assim, repare, insisto: falo mil linguagens e bobagens. Deixa as minhas falas, (des)coordenadas, se subordinarem à sua boca... adjetiva restritiva reduzida infinitivamente à minha. Deixa eu te puxar pela gravata (que adoro, acetinada, sempre a combinar com a camiseta de malha, por debaixo da camisa social alinhada); deixa eu arrancar teu paletó, em advérbio de-va-gar; me vestir, depois, com ele. Não, não toque ainda em nada! Nosso gosto em língua orelha peito, só... só desse jeito. Deixa eu lhe tirar o cinto preto e, no maior clichê, bater de leve em sua face imberbe. Deixa, no teu abdômen, seco, eu beber o – derramado sem nenhum cuidado – vinho tinto que você comprou, há pouco, no mercado. Mas continue aí deitado. Sabia que o botão da sua calça está gelado? E estas meias? Ora, tire, tire-as! Você veio ao mundo, agora, (só) para mim... Shhh, não fale nada. Deixa que apenas seja a minha voz a distinguir os vocativos de você. Só não deixa, no entanto, que, de hoje em diante, eu diga ainda que TE AMO.sábado, 20 de março de 2010
sexta-feira, 12 de março de 2010
Comentando o "Mago"

"Eva deu um passo em frente. Detém-te, disse o querubim, Terás de matar-me, não me deterei, e deu outro passo, ficarás aqui a guardar um pomar de fruta apodrecida que a ninguém apetecerá, (...) estamos no meio de um deserto que não conhecemos, (...) onde durante estes dias não passou uma alma viva, dormimos num buraco, comemos ervas, como o senhor prometeu, e temos diarreias, Diarreias, que é isso, perguntou o querubim, Também se lhes pode chamar caganeiras, o vocabulário que o senhor ensinou dá para tudo, ter diarreia, ou caganeira, se gostares mais desta palavra, significa que não consegues reter a merda que levas dentro de ti, Não sei o que isso é, Vantagem de ser anjo, disse eva, e sorriu."
SARAMAGO, José. Caim. SP: Cia das Letras, 2009. p.24-5
Não é novidade que José Saramago, com seus temas sempre tão - maravilhosa e diversamente - políticos e mais uma gama de características e qualidades literárias peculiares, é um dos maiores escritores de Língua Portuguesa; ainda vivo!
Foi com "As Intermitências da Morte" que dei meu primeiro mergulho para a vida pós-saramago. É fato que tive o grato conselho de uma maisquequerida amiga, quando me preparava para tal: "Olha, esse 'maluco' desconhece travessão parágrafo dois pontos e qualquer sinal (usual) indicativo de discurso direto em seus livros. Portanto, vá com calma! Ou quererá matar-se (ou matá-lo, literariamente) tão logo em suas primas páginas!" (Foi mais ou menos isso. rs). Conselho a que chamei grato, uma vez que seria enorme surpresa (para uma, à época, iniciante de um curso de Letras; à qual, talvez, poderia ter causado certa repugna (ou trauma) para com o, então ignoto, escritor), mas que a tornou, há pouco mais de 3 anos, sua embasbacada e intrépida leitora. E foi a partir disto ("Todos os nomes", "Ensaio sobre a lucidez", " = cegueira", "História do cerco de Lisboa" e, atualmente, "Caim") que fiz botes, dos mais agradáveis, as supremas vírgulas saramaguianas (ou como queiram) com que deslizo, hoje, deleitosa, por aquelas linhas-correnteza.
(...)
Queria compartilhar centenas de trechos dele, aqui, mas o bom senso compeliu-me a evitá-lo e deixei, tão somente, um, que ratificasse a minha imensurável loucura por este escritor cuja literatura - em seu discurso, mais do que em seus enredos, ouso - faz-me crer que Gênio não é aquele que apresenta suas ideias à nossa (mera) realidade, mas o que nos conduz a esta, através daquelas, e a transforma.
É como vejo a língua-saramago.
*obrigada, amiga maisquequerida, Ju, por 'Caim' também! (L) =)
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
mergulho
respirar consiste em ritmo:
abre alvéolos pulmonares
brânquias guelras peles - gases
trocas mil efeitos químicos.
quem mergulha, não tem fenda;
quem se cansa, expulsa o ar
como hélices no mar -
ondas iscas oferendas...
a coragem é uma fagulha:
quem tem medo, não mergulha;
quem se fode, só se salva...
a quem cede aos mares seus
já não há pulmões ou deus,
quando se lhes enche a alma.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
fossil.idade

os novos dias
não permitem mais poetas.
não!
os dias de hoje
são só cinzas - nuvens máquinas poeiras...
grafo, entanto, céus azuis
em simples folhas brancas
(manualmente; a lápis, giz...)
não sei por quê!
meu maior pranto
é, pois, saber que todo o resto
será leve - tênue pó -
a suplantar-se
em ventos, águas, tempos...
não permitem mais poetas.
não!
os dias de hoje
são só cinzas - nuvens máquinas poeiras...
grafo, entanto, céus azuis
em simples folhas brancas
(manualmente; a lápis, giz...)
não sei por quê!
meu maior pranto
é, pois, saber que todo o resto
será leve - tênue pó -
a suplantar-se
em ventos, águas, tempos...
"e se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder... pra me encontrar..."
"amar", florbela espanca
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