segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A Carta



Estive em uma favela.

Estive em uma favela?

E descendo aqueles labirintos

­– Mais conhecidos por: becos –

Interpelou-me um menino.

Trazia na mão um cabo de vassoura partido.

Perguntava pelo presente de seu pai.

Tinha uns oito anos.

Tinha uns oito anos que não via seu pai?

- Paparápaparápaparápátibum!

Fazia ele, apontando-me o cabo partido.

Queria mandar uma carta pro pai:

“Sr. Responsável...”

Era como referia-se.

“... queira dizer ao Brinquedo...”

Era como referia-se a si mesmo:

Não era gente?

Não se achava gente.

(Ouvia muito da sra. responsável:

Você não é brinquedo, não, menino!)

Só pensava, entanto, no presente.

O presente que o pai nunca deu.

Nunca foi.

(Em que) Nunca (es)tivera.

“... queira dizer ao Brinquedo... onde anda a minha bicicleta?...”

Uma vitrola arranhada na mente:

“Que futuro tem aquela gente toda? (...)

É pau é pedra é fim de linha; é lenha é fogo é foda.”

À minha frente, uma descida

Que não acabava. Que não acabava. Que não acabava.

Ele bate com o cabo no cachorro

Que passava contente.

Caim, Caim, Caim¹...

Ele gemia a própria arma forjada.

“... onde anda minha bicicleta?

Onde anda minha casa?

Onde meu sonho, que você nunca prometeu?”

Ele só queria mandar uma carta pro pai.

Tinha uns oito anos.

Não saberia escrever.

Não saberia escrever?

A carta nunca foi escrita.

“Que futuro tem aquela gente toda...?”

E a vida? E a vida?!

O que será... o que será

Daquela vida?

E o que será da minha?!



¹Caim, do hebraico, significa lança.


*

*Há uma mensagem subliminar aqui!

Esse poema-canção é fruto de meu Subconsciente – se assim posso dizer. Eu não estive numa favela. [Não estive?]

De madrugada [no acorda-dorme/acorda-dorme]; as costas doendo do colchão novo de molas [o outro, de espuma, mais rijo, não estava ‘dando’], que também não está ‘dando’, já desistida da tentativa de dormir, escrevi-o. [Escrever no escuro é uma habilidade que eu desenvolvi muito bem, diga-se de passagem. Decifrar, pela manhã, as letras atropeladas é o hobby que veio no pacote da habilidade desenvolvida! Impagável! Suportar o peso de um Subconsciente consciente é que dá a vertigem...]


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Por toda a minha vida...


... este é o único posicionamento que nunca mudou. Desde tempos remotos!

Não tenho o hábito de fazer do blog um diário (embora fale nele de muita coisa que não falaria em um “bate-papo-descolado”), mas esse desabafo, digamos, é um tanto necessário...

Caem queixos toda vez que alguém me pergunta e eu respondo categórica: “Não, eu NÃO quero ter filhos!” O que é seguido de um enfático: “Por quêee???” E aí eu penso: “Por que é que querem saber tanto da nossa vida?!”, mas respondo: “Ora, já tá cheeeio de gente no mundo, pra quê mais, né?!” Mas, é claro, digo só para mudar de assunto. Afinal, maternidade é algo muitíssimo complicado e exigente e placentário e sanguíneo demais e... enfim, belo, de fato, e algo mais sobre o que eu não saberia dizer.

Tenho 22 (vinte e dois!) anos; olho pro lado e vejo minha prima, cuja bunda limpei antes dos banhos; quando ainda chorava com uma trovoada... e, hoje, leva ela no colo um filho de 2 anos e poucos, em plenos 16, 17, i don’t know... Fico me perguntando tanta coisa, que é melhor nem expor aqui – creiam!

Bem, não sei se cabe na ideia do texto, mas já que disse uma vez que alunos são como filhos (aos dedicados professores), vale o relato de há uns poucos meses...

Tive uma primeira experiência (maternal) com uma turminha, no estágio, e poderia afirmar: eram bárbaros! (Nãaao, não é bárbaro de maravilhoso, não! Mas... tipo pseudoselvagem mesmo, sabe?! Então...) Eram uns 15, dentre os quais, 1 zinho – o Luam, dos olhos de amêndoas mais doces que já vi – a quem encarreguei ser meu “monitor”, já que foi o único (de verdade) com quem consegui lidar. Que chegou a me perguntar com uma vozinha ainda mais doce: “Tia... por que você fala tão baixo?!” E eu: “Porque ninguém aqui é surdo, meu bem. E a ‘tia’ não está disposta a acabar com sua garganta...” (Foi quando me lembrei do primeiro diálogo que tive, ao chegar lá, em que Marcus Vinicius – o fuzueiro-mor do colégio! – me perguntou por quanto tempo eu estaria ali, ao que respondi: “Por quanto tempo eu aguentar, nem!”, e ele: “Ah, então vai ser “ingual” às outras tias: vai embora rapidinho!” Daí, pode-se ter uma vaga noção, sim?!).

A questão não é eu não gostar de crianças (porque eu gosto, sim, gosto mesmo, juro! – até os 4 anos de idade – depois, aquelas com mais de 60, 70, 80... também). A questão é que elas têm o dom de me fazer de gato-e-sapato. Aí, eu imagino um filho... e imagino que o mundo ‘tá precisando mais de Mães do que filhos. Porque nós, sendo filhos, andamos meio órfãos de mundo também... (Mas isso aqui não é pra fazer sentido, é?)

Enfim, só para ressaltar àqueles que não me entendem muito bem: não, eu não quero ter filhos (: sou dona do meu corpo) – e, aqui, fala o lado egoísta – preciso mais é que cuidem de mim. E seria muito bom, também, que muitas meninas pensassem 165.465.135.468.79 vezes antes de saírem dando por aí* colocarem mais uma criança neste mundo, que nem sabemos se dura muito, ainda...

Assim, eu me aposso das sábias palavras de Brás Cubas e me execro da (in)sensibilidade camuflada nas ironias: não, não hei de transmitir a nenhuma criatura o legado de nossa/minha miséria. E tenho dito!


*adorei e roubei o recurso do Ivan, pra transmitir os pensamentos ‘censurados’! rs

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Fuga inútil


tenho sido surda

às indagações

feitas de alma pr’alma


dos vãos

desvãos

dos nãos

de mim...


a janela aberta me desenha,

aqui,

pálida paisagem.


lá, de nuvens interrogativas,

ouço mil trovões

e trovoadas graves

[grávidas]

- de sins?!



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bússola



deslizam sobre a superfície
impermeável
nômades palavras.

em busca da própria sorte
onde chegarão?

a rosa dos ventos
aponta para o norte
mil sentidos submersos.

e a ponta d’uma agulha
tece fugas e versos.


*fujo eu? fogem palavras? foge quem?