segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Pedráfrase



A Drummond de Andrade

no meio do caminho
havia uma pedra
uma pedra
no meio do caminho.
deus, havia uma pedra
bem no meio do meu caminho!
a pedra, meu deus,
a pedra
era o eu meu
sozinho,
sozinho...


*de aniversário - antecipado.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Pululando. . .

[Porque hoje está chovendo e água é meu habitat psíquico - embora eu odeie este tempo!]


Eu queria um texto em prosa,
Mas fugi pros versos livres
Onde nada é proibido:
Se faltar-lhe o meio ou fim
Será meramente um nível a explorar-se
– De semântica ou de mim!...
Eis então
O quê, de fato, ‘inda nem sei!
Sei que sinto esta vontade
Que é maior que qualquer força
E vou deixando as mãos inábeis,
Epiléticas e moucas,
A dizer tudo o que a mente
Verbaliza em ideias poucas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

[Voltando ou Ainda] No Rol da Música!



Tenho um amigo amado, companheiro de carreira de letrandos [e loucos], musicista, o Wallace, que há pouco tempo me propôs: Rafa, que tal você fazer uma letra e eu musicar? Pensei: isso deve ser muito difícil! Mas... eu respiro música, cultivo escrever... Uai, vamos tentar!

Fomos bem objetivos. Ele veio com a ideia da canção; eu criaria sobre ela o “desenrolar da história”, que falaria acerca de [usando as palavras dele] “fazer as coisas certas / agir corretamente, em relação a um relacionamento (de amizade ou amoroso)” etc. No meio disso, surgira algo relacionado a tomar café da manhã (?) – que não me lembro de que lado partiu, se dele ou se do meu; acho que dele! – que seria, então, realizado por um casal de amantes depois de passar a noite juntos _ponto.

Daí veio, para mim, por email assuntado ‘SONG’, a provável melodia. Um detalhe viria, também, mais tarde: sendo ele da área de Inglês e eu, de Literatura, preferiria ele a canção naquele idioma [no qual ele costuma fazer suas canções] e eu, na língua materna. [Ó, cruel destino!] Acordamos, pois: parte em portuga; parte no english, que fomos alterando de acordo com ritmo e afins...

Eis o resultado da despretensiosa brincadeira, que foi uma surpresa [boa] para mim – porque, apesar de ela não ser do estilo de música que costumo ouvir [é uma ‘baladinha americana’], curti bastante – e é algo que eu gostaria de fazer mais vezes e de variadas formas.

Segue letra¹, cujo nome foi mudando, mudando... Até chegar a “De verdade”:


Gonna make it right >>>>>> De Verdade

Ei! vamos lá!
Trilhar, co'os gestos,
Os passos destas horas
Esqueça o tempo
E tudo que não nos compõe de verdade
De verdade...
Hey! Let's go!
To tread with gestures

The footprints of these hours
Forget about the time
And everything that in fact
Isn’t on us...

Ponteiros compassam
Enquanto se cruzam nossos corpos
Pela madrugada escura
Ao preâmbulo da aurora
(In the beat of the pointers
While crossing our bodies
From after dark
‘Till come in the dawn

E se depois (de tudo)
Não formos mais
Quem fomos no passado
Limpemos os (nossos) rastros
Co’as páginas manchadas
Do tempo que foi (vivemos)...
And if after whole thing
We won’t be who we were
We cleaning ours traces

Using the dirty pages
Of time that is gone

E, enfim, que as rasguemos
Rompendo a harmonia
Do branco dos (meus) sonhos
Com o negro do café
(Que, juntos, derramamos...)
And, finally, we rip them
Breaking all that harmony

Of white of my dreams

With the black caffeé
That we'd spill together...)

Clique aqui para ouvir!

¹A letra completa só se dá na parte escrita, uma vez que, cantada, ficaria muito extensa.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Um Dia Outonal de Primavera

Brancas

Braças para o alto

Enfileiradas...

Por trás do gradeamento arbóreo

Dedos em gotículas dispersas:

Longos, médios, ínfimos...

Espargindo em risadas infinitas

Cócegas benditas – a jorrar.

Em tom mesmo; em ritmo inalterável:

Risos com som de mar.


Quiçá não dançariam?

Bailarinas ritmadas, alvas faces, risonhas...

Pontuando sinfonias

De algum caro gênio

Que eu não sei sequer dizer-vos quem...



E o mundo, ao redor, estático:

As pequenas selvas,

A meus pés, sem respirar;

Nuvens cinzas, carregadas,

À cabeça, a pairar.

Vez ou outra, apenas, uma folha ressecada

Caía de um galho fino

E nós todos, ao balé risonho, assistindo

Em gesto fixo...


Pobre, pobre alma

Tão tristonha

A contemplar esta galhofa-chafariz,

Enquanto se esquece...

Enquanto vê se esquece

De que mesmo que chora.


*Imagens: "Praça da Yoga" [nomeada por mim], aos fundos do Shopping Downtown.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Cotidiano




Amanhecia. O céu era branco; havia neblina; a chuva fina de final de inverno acompanhava um sem-número de cidadãos, que, cedinho, iam para o trabalho; as buzinas, quais despertadores, a reverberar nas ruas cinzas, próximo ao Maracanã, onde dezenas e dezenas de pessoas caminhavam e corriam, cíveis _e impassíveis.

Ainda que fechada, pela janela _um tanto baça pela chuva a lhe escorrer_ ela era vista. Em contraste àquela movimentação urbana, ela arrumava, calma, a cama. Esmeradamente. Apanhava cada ponta da coberta de uma cor indefinida e dobrava, dobrava... lenta.

A alguns passos dela, três pequenos, de idades bem aproximadas, a observavam com a passividade de felinos preguiçosos à espera de uma oferta maternal de leite. E ela: a dobrar, a dobrar...

Abre-se o sinal. Pela janela baça do ônibus, eu vi: a coberta de uma cor indefinida _já tão suja_ junto a folhas de jornal e papelão; o olhar grave dos [prováveis] filhos _filhotes famintos_ sob a marquise, a protegerem-se da chuva aguda... Mais um dia na calçada do Maracanã; por passantes corredores governantes deus (?!)... como se não fosse vista.