segunda-feira, 29 de junho de 2009

[In]compreensão



Aquilo a que chamam Deus
Não me deu poder de fala:
Silêncio grita intermitente (em mim)!
E só eu posso ouvir...
E ainda assim não sei dizê-lo.
Arranha-me por dentro;
Amputa-me por fora;
Restringe-me à solidão.
Solidão que não é má e nem é boa.
Solidão que me acompanha
- Predica-me.

Às vezes, me arrisco; falo um pouco
(Mas é só para mim)
- E não me entendo.
Se um dia meu silêncio se calar, porém,
Todas as palavras eu hei de falar!
E não poderei nunca me entender também.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Sobre Muito Pouco



Às vezes sou plena poesia.
Poemo-me inteira: frente e verso.
Corpo que não esvazia
Palavra que, porém, transborda em si
Com toda a autonomia.
E não diz nunca porque quero!
Nem tampouco porque sinto
Ou porque vejo ou porque minto...
Perde-se por trás dos olhos
Sob os óculos escuros;
Pelas ruas que se movem
Sob os passos sem cadência;
Pelas máquinas famintas
Sob fulcrais barulhos;
Pela onomatopéia dos relógios;
Pelo vôo silencioso d’um mosquito;
Pelas asas de um avião caído;
Pela falta de um ente,
Sob os pés, adormecido;
Pela conta já vencida e ‘inda não paga;
Pelo morador de rua invisível
Sob as fossas faciais da sociedade;
Pelo lixo exagerado
Do consumo insustentável;
Pelas pedras polidas ou pelas pedras brutas;
Pelos pés dos manequins
Tão distintos dos nossos;
Pelo gato no telhado
Sob a lua mais altiva;
Pela sedução do mar
No abismo do horizonte;
Pelo jogo, pelo amor
Ambos já tão perdidos;
Pela estrela, que ilumina
O breu de nossos destinos;
Pela vida, pela rima
Pela ausência que acompanha;
Pela coisa, pela dúvida
Pela reticência aguda;
Pelo eu, pelos loucos, pelos poucos
Sob a imensurável vastidão dos muitos.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O Haiti é mesmo aqui!


Parafraseando Caetano, porém, ouvindo Chico (sua canção “Subúrbio”) foi que pensei: e eu aqui reclamando por não ter dinheiro para ir ao show do Alceu! =/

Lia sobre tecnologias num jornal, quando me dei com o título Fome no Haiti, cujo texto, acompanhado da imagem acima, principia com a pergunta “Você já pensou em comer lama?”. Pois é... certamente não. Mas há, no referido país, milhões de pessoas fazendo isso, devido à fome.

Sabemos bem que esse é só um dos problemas que assolam aquele país (e, em se tratando deles, nem é preciso ir tão longe!), além de toda história conturbada que percorre tais terras (de que agora se alimentam aquelas pessoas!); todas as crises políticas, econômicas etc. Um lugar com sei lá quantos milhões de habitantes não é tão invisível assim! Tanto que as “boas terras” existentes já foram aproveitadas por outros Países-Estados (inclusive pelo Brasilzinho) em virtude de suas razões capitalistas muito mais urgentes, claro!

O fato é que não quero cá falar do que não tenho pleno conhecimento, nem tentar compreender a capacidade do ser humano de virar as costas pra isso tudo – porque fechar os olhos está muito aquém desse desprezo. Afinal, a política (de um modo geral) já está deveras saciada com a fome, a ignorância, o alheamento dos cidadãos mesmo, né? – mas queria tentar – se é que possível – imaginar de onde surgira (além do desespero) a idéia dessas pessoas em se alimentar de lama...

Lembro de minha saudosa avó contando que, pequena, quando havia (!) alguma carne nas refeições, e ela deixava no canto do prato para comer por último, antes que pudesse se deliciar, sua mãe ou padrasto metia o garfo e lhe comia a carne guardada pro final. Segundo eles: “para aprender que se deve comer tudo junto; sem frescuras”.

Hoje, até receio dizer que sinto fome.

Não sei, não. Mudei de assunto e nem notei. Tudo parece demais para mim. E aquilo era “só” uma “paginazinha” de jornal... E será que um dia [o mundo] acaba?


[Adendo: Talvez, pareça repetitiva, visto que num dos ‘posts’ anteriores, também me referi a ela: a fome. No entanto, com a máscara da piedade já arrancada, uma lágrima escapou... e não queria apenas secá-la, mas confessá-la.]

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Incompreensão


Que peso é que tenho
Em minhas costas?
Que lágrimas são estas
Que enxugo?
Há quantas perguntas
Sem respostas?
O que fazer para se viver
Por este mundo?

Os gênios estão mortos!

Carrego todo o mundo nas mãos
E toda água nos olhos enxutos;
Não sei o que me pesa nas costas
Quiçá esta incompreensão de tudo...



O ano acaba aqui: Abril:

..., ... mp4 furtado; celular roubado (30/04); namoro de uma amiga rompido (30/04); avô de outra falecido (30/04); assalto à mão armada na vizinha de uma terceira (30/04); gripe suína se expandindo; notícia de hipertensão em minha mãe...
Olha, não tá dando, não. A gente fecha os olhos para não ver, mas a vida belisca/ bota o pé na frente/ nocauteia, já no quarto round. Não tá dando mesmo!
É preciso "apontar pra fé e remar"?! Vou acabar me jogando nesse mar...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

*Exílio


Como de costume, mais um causo ocorrido no ônibus, voltando da faculdade... Chuva; eu de havaianas; semi-ensopada... Confortabilíssima! E não mais variável: vinha mergulhada em minhas leituras, que não as obrigatórias (essas deixo para cima da hora), mas as prazerosas, que me não exigem tempo final de término ou muitas anotações reflexivas.

Não mais variável ainda, entra um sujeito a falar em “bom” tom, pedindo desculpas pela interrupção do silêncio da viagem (como se isso adiantasse algo, de fato!) e algum tipo de “esmola” a fim de pagar sua passagem. Em seguida, vem a história triste, sob o sotaque cantante, que logo reconheço...

“Meu nome é Luis, tenho 53 anos, vim de Passo Fundo/RS (!) e cheguei aqui no Rio, cidade grande, com muitas expectativas, mas logo fui recebido por uns assaltantes que levaram todo meu dinheiro, com o qual pretendia me manter por um bom período...” Etc, etc, etc. Pensei: Que r[d]ecepção, meu Rio! Cadê aquela hospitalidade de que tanto falam?

Logo que alguém se precipitou a pagar a passagem do sujeito, e que ele passou a roleta, mais um pouco de história sobre a fome e a dificuldade de emprego, etc, etc, etc. Eu, com o “Rio Card” da minha tia; umas pratinhas na carteira; nem me prontifiquei. Rosto de piedade e, no fundo, matutando: Daqui ele sai, desce no próximo ponto, entra em mais um ônibus, conta a mesma história, tem sua passagem paga, ganha mais uns pela referência à fome; reticências.

Então, um passageiro bonifica-o com uma nota de vinte reais (vinte!) e completa, quase que lulísticamente: “Aqui, companheiro. Também passei por isso e entendo tua situação...” O sujeito agradece e Deus abençoa o caridoso umas mil vezes e ele passa por mim com sua bolsa encharcada de chuva; bate com ela na minha cara e joga minha (falsa?) expressão piedosa no chão e se vai por aí a fora.

E eu penso: Que Exílio, meu deus...



*Leitura referida: LUFT, Lya. Exílio.