domingo, 10 de dezembro de 2017

Eu, Macabéa


O que sinto modifica o que digo
e vice-versa 
Mas se digo mortifico o que sinto
- as palavras amortalham-me 
os sentidos


PS: Com este poeminha, neste dia em que Clarice me brilha sempre mais intensa, quero me despedir deste blog, que foi meu querido companheiro por tanto tempo (que até me surpreendo), ainda que eu não lhe tenha sido - nos últimos anos - tão fiel quanto poderia. Obrigada, meus queridos, que tb nos acompanharam até aqui. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Poemanifesto




Na atual conjectura
Dessas novas ditaduras
É possível fazer prosa,
Qualquer nota, uma glosa?
Ou terá de ser poesia
De anônima autoria?

Será força do destino
Ou deboche do divino?
Que há nomes atualmente
De uns quantos presidentes
Que fazem por si denúncias
Em suas próprias pronúncias

Michel Temer... Donald Trump...
São piores do que funk!
Não tenha medo, não tema:
Faça arte, faça poema!
Se houver trunfo nesse jogo
Tem naipe de demagogo

“Fora, Trump! Fora, Temer!”
Pois quem tem boca não teme
Se a palavra nos liberta
A esperança já é certa:
Liberdade é pra quem tem
Acredite – yes, we can!

sábado, 1 de julho de 2017

inacessível



estendo na madrugada
os meus pesadelos
como lençóis de Orfeu
para construir pórticos
— horizontes [in]visíveis —
onde os buracos negros
da minha alma
não cabem no mirar...

esse mundo paralelo
que eu engendro
é compensação à ignorância
inveterada de mim mesma
sob uma irredutível realidade
cujas distorções, inevitáveis,
me impelem ânsia e medo...

no escuro, não há espelhos.
com as lentes do criar
feito sondas
captando imagens
dos desconhecidos
territórios do meu corpo
mantenho fechados os olhos:
escrever é sonhar

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Excertos - [des]aforismos



I
do ínfimo ao infinito
eis a minha conjectura
: o mundo é sempre mais bonito
visto a certa altura

II
asa de imaginação que bate à toa
desconhece o céu: não voa

III
diz-se que a vida é matemática
assim, tal coisa prática
digo que é [meta]linguística
vida humana [inexata], tal coisa mística

IV
the black hole
is not black whole
either a hole


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

nuvens

hoje pintei meus sonhos
em mil desenhos
de nuvens
         só para você ver
e soprei ao céu azul
em direção à tua morada
mas ficaram todas
disformes... estioladas...
         e o dia segue, pois, enevoado
    dentro e fora do peito

: tua janela permanecia fechada

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

interação



o silêncio é inspiração
a palavra é expiração
:
respirar é experiência linguística
poesia é concepção holística

domingo, 18 de setembro de 2016

Presente


Uma fuga perfeita é sem volta é um texto que se tece sutilmente de - um não absoluto suspense, mas - uma história suspensa, na qual se desarrolam imagens, por meio das quais co-criamos (num fio dialogal imaginário) uma outra história em simultaneidade. É uma leitura que se faz - inevitavelmente - com o coração um pouco acelerado e sorriso nos lábios, murmurantes, porque não se contêm ao gesto dos olhos - por vezes, marejados - e que tantas vezes retomam parágrafos inteiros, só pelo puro prazer de admirar sua beleza uma vez mais, e outra, antes de prosseguir.

Esse é o mais recente romance de Marcia Tiburi, uma composição esplendorosa de 600 páginas (não por quantidade, obviamente), na qual Literatura, Filosofia, História e Arte se mesclam em sincronia natural, tanto como panos de fundo quanto em aspectos estéticos da própria obra. Quanto à extensão dessa, divago se não seria ela a metáfora concreta de acontecimentos narrados por um gago? Materialização de suas tão custosas expressões (que são também sentimentos) - problemática do ser e do dizer.

A priori, muitas questões já insurgem no extático mergulho em sua trama: Quem são Agnes, Irene, Ignez e tantos outros? O quê e como lhes vamos atribuindo em nossa construção imaginária, por meio das impressões que o narrador-personagem nos lega? E, por sinal, quem é esse também? Que formas, que corpos - e corpo, aliás, é uma das maiores anamorfoses que há no livro (vide a capa) - vão ganhando, senão meras intangibilidades, mais físicas do que psicológicas?

Início, meio e fim: o primeiro - dizem - toda história deve ter. A meu ver, o processo regressivo (e digressivo) da narrativa faz jus a isso e à suspensão a que me referi; além de alimentar, no leitor, um desejo de que essa história, em contrapartida, nunca termine (eu mesma não o fiz e nem sei quando e se o farei). Quiçá a fuga (não a do fim, mas a que há na trama), como na canção de Paulinho da Viola - "voltar quase sempre é partir para um outro lugar" -, seja um vice-versa, um necessário retorno, um (re)encontro, quiçá...

domingo, 29 de maio de 2016

portal


à incandescência celeste
a pairar
acendo um candelabro de estrelas
cuja luz projeta a eternidade...
     um feixe vacila
     no chão do presente
     outro alça voo
     como aforismo do futuro
descortinando a realidade
silhuetas da existência
entrementes
bruxuleiam no pequeno infinito
de meu olhar

terça-feira, 26 de abril de 2016

Game of Thrones, Renato Russo e o Brasil


O que o Brasil, aquela música do Renato Russo e Game of Thrones têm em comum? Não é só o inverno que nunca chega. E para quem está se perguntando o que o Renato tem a ver com a história, não se trata tampouco daquela canção "mas é claro que o sol vai voltar amanhã...". Então, calma, a gente chega lá. 

Em uma terra distante, chamada Westeros, e na América do Sul, numa terra chamada Brasil, a batalha dos (muitos) reinos se prolonga. Se Stannis Baratheon – com sua frieza e a extrema crueldade de quem lança a própria filha a uma pira – tem por semelhança Eduardo Cunha (fazendo o mesmo com a Presidente e com o povo daqui), mas foi à derrota pela espada de Brienne de Tarth, é obrigatório seguirmos com a esperança de que a nossa Brienne – Juiz Moro? – ainda faça o mesmo. 

É aos domingos que as famílias se reúnem, é aos domingos que se costuma ir ao circo, foi no penúltimo domingo que nem precisamos pagar ingresso (porque já pagamos constantemente a conta) que aquela horda de Filhos da... Harpia entrou na arena, e os jogos de intriga deram no que deram. E agora? A Presidente Dilma – tal qual Rainha Cersei (mas que também possui um tanto de Jon Snow no curriculum) – perde temporariamente o trono (de ferro)? Porque já segue sob xingamentos e cusparadas (opa, o cuspe não foi bem para ela, mas vai lá).

Resumo da ópera: somos todos Tyrion Lannister (exceto pela riqueza): marginalizados, apequenados (pela barbaridade civil), deformados (pela batalha da sobrevivência), mas sem abrir mão de boas doses (não de chopp, mas) de vinho, para encarar essa bagaça. Porque essa história de várias versões, em que nem tudo é ficção e nem tudo é verdade, e em que tantas vezes é difícil distinguir uma da outra, infelizmente nem toda está ou estará nos livros, mas o Norte se lembrará... o Sul, o Sudeste, o Centro-Oeste e o Nordeste também. 

Quiçá nossa Danaerys Targaryen esteja bem perto, porque já não há São Jorge ou fé que deem conta da situação. E que, com muita resistência, com a espada nas mãos e a canção de Renato, cantada como um hino – tão mais pertinente nestes “dias desleais” –, sigamos, pois; e os maus que se cuidem e atentem ao “sopro do dragão”. 

sábado, 14 de novembro de 2015

Fishman, uma obra-prima




"- Quando foi? - O quê? - Que você deixou de ser... a minha mãe? - Eu ainda sou. Ou não sou? - A minha mãe? - É. - É? - Eu não sei! - Não sei!  - Nem eu! - Nem eu..."

Um barco. Espécie de aquário... Do pensamento ou do tempo (há diferença?). Espécie de bolsa... Amniótica? Um lugar, afinal, em que dimensões diversas se entrecruzam. Dois homens. Homens? Peixes? Seres. Matérias espirituais (com toda a contradição que isso constitui). Presenças e ausências coexistentes. Diálogos e incomunicabilidade. Intangibilidade e contatos (de vários graus). 
O(s) universo(s) de Fishman: consagração daquilo a que chamamos Arte. Arte, porque ainda não criaram um nome - e eu não ousaria - para a maestria de uma mescla de gestos, expressões e verbos, como versos de uma poesia inefável.
Quem dera eu pudesse, pois, dizer ou escrever sobre a realidade (seria mesmo?) vivida naquela sala de teatro...

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

ao contemplar Dalí


interminável como um rio
flui de instante a outro instante
sempre, sempre e em um só sentido
e nadamos em seu mistério assonante

seu caminho previsível e consistente
é medido por nascentes e poentes
ei-lo, pois, esse processo de repetição?
nem tudo o que repete é um refrão

e se a medida oficial do mundo
cuja frequência de oscilação
dos átomos de raro césio
precisa-nos cada segundo em vão?

dentro das coisas inapreensíveis
seguirá guardado o seu portento
: indicam horas os relógios
mas nunca dizem o que é o tempo

quinta-feira, 14 de maio de 2015

palco


reencenar
a cada dia
aquilo que falhou
aquilo que foi ruim ou bom
repetir
de um jeito diferente
os erros e os acertos 
a tentativa de sair mais cedo
para o trabalho
o desejo de voltar cedo também
para a casa
a roupa gasta, mas com um sapato novo
o perfume de ontem e anteontem e antes de anteontem
sobre a pele de hoje
o penteado, a maquiagem
sobre alguma cicatriz
[ainda que indeléveis quaisquer cicatrizes]
redizer
o bom dia, o boa tarde, o boa noite, o feliz aniversário, o feliz dia das mães, dos pais, dos avós e das [crianças
refazer
aquele feijão e o arroz
sem queimar, sem salgar demais ou de menos
voltar
à mesma paisagem que compôs
aquela foto sobre a cabeceira
a paisagem, que é já outra
a companhia, que é já só lembrança
e o sorriso, que é já menos branco
reescrever
aqueles versos
outrora escritos por alguém
pois que todas as palavras não são mais que ecos
e nem mesmo o silêncio as contradiz
posto que é reprodução do mesmo cansaço à voz
reencenar, pois,
todos os dias
uma nova e mesma vida
ao inevitável e imprevisível
cerrar de suas cortinas.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

madrugada


minha noite passa
como uma vida sem estrelas
- trama sem drama -
e adormece sozinha
na cama
enquanto, à cabeceira, tremeluz
a chama
de um candelabro
feito de angústia, solidão e lágrima

quarta-feira, 1 de abril de 2015

[im]permanência

agora fica comigo
   apenas solidão
     [afora cheiros, fotografias, reticências]
       noite após noite
         me acostumo à escuridão
           silenciosa dos gestos guardados
              à medida que a saudade
                 já faz moradia
                   e não aceita companhia
                      em meu peito triste
                         pois que pouco não é
                           quando muito ainda existe


sexta-feira, 13 de março de 2015

meus [uni]versos [lit]erários





sou barroca quando fechos os olhos
ao mistério e vejo o mundo pelas mãos
no meu declínio epicurista-pagão
sou neoclássica quando me expando
e do meu corpo nascem paisagens
e sou árvores sou terra sou mar ilha
sou romântica quando meu coração e espírito
despertam o idealismo lírico e são capazes
de morrer para serem livres e, enfim, viver
sou realista quando, naturalmente, determinada
ante os fenômenos da vida, me interpreto
na ambiguidade a mais humana hipocrisia
sou parnasiana quando equilibro meus desatinos
fazendo parcos versos decassílabos
com minha racionalidade fria
sou simbolista quando, no mais intrínseco de mim,
escamoteio a realidade sã e me eviscero dos demônios
dormentes, decadentes, na degenerescência vã
sou modernista quando, enfim, desprendo-me
de quaisquer grades e sigo na univastidão
de minha idiossincrática retangularidade

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

zeus?

do caos à gaia
do tártaro escuro a urano
das ondas movidas
por tridentes de poseidon
a atlas
e seus braços másculos
titãs, de cronos
a cíclopes e hecatônquiros
de toda metafísica
da via láctea
a vida contida no invisível
dos fatos
pertence aos deuses
átomos

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

luto


nunca mais? 
o seu sorriso
a sua doçura
a sua amizade
a sua presença
a sua voz [sussurro]
ou para sempre?

a sua pequenice
d'uma alma enorme
agora dorme
mas não
dentro da gente...


domingo, 21 de dezembro de 2014

Supernova



A explosão de uma saudade
consome esse vazio
buraco negro
que a tudo torna uma só coisa…

E o destino está selado
: a estrela que se desfez
é o coração, que no meu peito, 
amanhã nasce outra vez.