segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Xodó!


Ela não existe, mas porque acredito, sim! Ela é minha alma gêmea; não metade, mas inteira: manteiga em dia de sol. Ela é um meu raio de sol! Ela me salva [sempre-sempre] e me faz crer na Vida, a cada gesto imprevisível e lindo com que me recria o mundo. Ela poliniza o ar: flor da minha janela. Ela é o meu olhar e a própria paisagem! Ela não tem mesmo moldura: não pede espaço; invade tudo. Ela é todo esse clichê, que digo sempre, porque o tornamos puro. E tão mais que isso:

Ela se me é...

.

Gosto de falar para ela, acerca dela [com cacofonia e tudo], assim, como se fosse para outra pessoa: ela me diz que não pede palavras, mas suscita todos os verbos dessa língua exclusiva que criamos, dia a dia, só para dizer AMOR.


Por isto e por tudo!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O meu mundo

Qual “A última crônica”, de Sabino, assim eu quereria a minha primeira...

Tarde. Eu, no mesmo banco longo de madeira de todos os dias, [a]guardando os últimos minutos, antes de voltar ao mundo... Nem ao sul [de frente à lanchonete]; nem ao leste [à loja de brinquedos]; nem ao norte [à clínica de estética]; mas a oeste, para o inativo chafariz, figurado frente ao sol que se lhe põe ao fundo.

A meu lado, uma senhorinha cheia, cheia de vida – quantos anos, pensei só, feitos bodas prateadas nos seus fios de cabelo, que eu olhava e olhava... Sua postura nem tanto ereta, tampouco arqueada, mantinha-se sob uma calma que eu, [in]conscientemente, procurava no entardecer. Suas unhas, bem pintadas, de um vermelho, que eu olhava e olhava, na mão frágil repousada ao colo. E nem um som em torno – nenhum som, em mim, se propagava no espaço dos sentidos.

[Lembrei minha avozinha...]

Súbito, e vagarosamente, a senhorinha se levanta com dificuldade natural e pura, apoiando-se à bengala... Para por um tempo, sempre olhando em frente; arrisca um passo, fraqueja [ou hesita]; fica um pouco mais, alguns segundos – extensão de um céu inteiro! – volta, em minha direção, seu rosto de uma flor tão alva e, em um gesto quase imperceptível, me desenha um riso delicado. E se vai.

E, em meus olhos,
– mundo inteiro, com seus mares calmos –
anjos molham suas asas
para um voo azul
que me colorem a alma.

domingo, 14 de novembro de 2010

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

silogismos ao vento [2007]



todas as árvores têm troncos
cujas raízes impedem ao vento
levá-las.
— imagine: árvores voantes!
em seus galhos, em geral,
há ninhos
que, às vezes, têm raízes
mas voam
como pássaros,
que também têm ninhos,
nas não, pelo vento, voam:
eles têm asas!
assim como as galinhas,
que vieram do ovo
— ou será o contrário?
o ovo também “vem” do ninho
o qual pode ser de galinha
e de passarinho.
mas ovo não voa!
— e a galinha?

alguns ovos são comidos
por outros bichos
ou por humanos
— que também são bichos?
nos ovos, há a gema
e há a clara.
a primeira é amarela
como o sol
a segunda, transparente
mas, se frita, é branca
como as nuvens.
o ovo não é céu!
entanto, há céu na boca
e a boca come o ovo
o qual pode ser estrelado
como o céu
mas não o da boca!
e dela saem sons
que não são dos pássaros
dos ovos
geralmente, são palavras
— comem-se palavras?
e elas dizem muito.
e elas estão tudo:
estão árvore, estão ninho
estão asa, passarinho
estão boca, estão céu...
— as palavras são ovos?!
mas elas voam:

elas também são vento
aqui, neste papel...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Só o chifre humaniza

[Como eu adoro esse cara sabido!!!]

Xico Sá

Não tem jeito mesmo. Só um chifre humaniza um macho, repito aqui o velho mantra da coluna. Daqueles bem parafusados pelo destino em nossas testas lisas. Nem que seja apenas como arma de vingança, como reza a lírica do cancioneiro de Carlos Alexandre, o grande do brega.

Um chifre daqueles que nos faz furar o LP com Stephanie Says, do Velvet, ou nos põe como a última das criaturas, ao sentir as batidas dos pingos da tempestade contra a vidraça. Aí entra Tom Waits, que gorjeia This One’s from the Heart, aquela do fundo coração, o filme de Francis Ford Coppola.

Posso tocar mais uma da fita O Fino do Corno, que acabo de gravar aqui no velho cassete das antigas? Então lá vai, lá vai, roda, segura aí, peça logo outra cerveja: Les Amours Perdues, do canalha-do-bem Serge Gainsbourg. Essa é para chorar, como convém a quem deixou rastros de incompetência e de vacilos sentimentais pelo caminho.

Chifre posto, lá estamos nós, répteis do amor (agora entra Por que me Arrasto aos teus Pés, do rei Roberto, para coroar a breguice dos humilhados e ofendidos), carentes como um poodle.

E essa nossa loucura, muitas vezes, não deve ser tributada simplesmente à febre amorosa que estoura na pele e mancha o caroço dos olhos. Enlouquecemos mais pelo ego de macho, que não suporta uma “literatura comparada”, uma derrota, do que pelo grande amor de fato.

É o medo do cabrón diante das comparações. Tudo que queremos saber é apenas se o adversário, a quem sempre vemos, de imediato, como o Pelé do tantra, o Cassius Clay do priapismo, é mesmo o tampa-de-Crush, a bala que matou Kennedy, o tal da química de pele, o cão do terceiro livro…

Aí insistimos, insistimos, insistimos na nossa babaquice, até que ouvimos mesmo, daquela ingrata, que perdemos o embate, o jogo, o clássico do sobe-e-desce, o decisivo mata-a-mata nesse faroeste empoeirado dos nossos inconscientes.

A literatura comparada é o golpe fatal. E que gazela perderia a chance, diante da pergunta do imbecil, de empurrar o sujeito para o abismo?! Aí não tem cachaça ou uísque que curem. É o fim. O mais confiante dos homens sucumbe nessas horas.

E se a moça, toda saltitante, aparecer na firma com aquele sorriso franco, aquela pele remoçada… Nunca vamos imaginar que possa ter sido apenas uma combinação perfeita entre o Prozac e o creme de vitamina C + coenzina Q10, obra e graça da renovadora indústria coméstica!

Sempre pensaremos no desastre-mor, no grito selvagem (dela) de prazer. Sempre achamos que a desgraçada, a miserável, descobriu, finalmente, todos aqueles multiorgasmos fresquinhos anunciados toda semana pela revista Nova. A capa da Nova é a primeira imagem que temos. A perua toda feliz com a carga elétrica de 220 wolts que recebeu do velho urso.

É assim mesmo. Pois a vida é simples e sempre vai imitar aquela singela crônica de Rubem Braga. Lá para as tantas, uma tal de Joana entra no carro de um palhaço, toda aconchegada a ele, meio tonta de uísque, vai para o apartamento do monstro – um imbecil que não sabe uma só palavra de esperanto. A vida é triste, Sizenando, conclui o escriba, a quem agora fazemos coro.

E no toca fita do meu carro, como canta agora Bartô Galeno, uma canção me faz lembrar você…

& Modinhas de fêmea

Somente a solidão, essa pantera, foi minha companheira inseparável. Dá-lhe Augusto dos Anjos, nosso primeiro punk metafísico, aqui em socorro dos solitários de saco cheio com o massacre publicitário que sofreram por causa do meloso dia dos pombinhos.

E haja celulares de regalo, com horas e horas para falar de “graça”, créditos para um bom pé-na-bunda, como diz a amiga Cynthia, créditos para o chá-de-sumiço dos homens frouxos que não têm sequer a decência de uma despedida de corpo presente.


(*) A coluna Modos de Macho & Modinhas de Fêmea, do jornalista Xico Sá, é fornecida com exclusividade pela BR Press.